Cleitinho Azevedo assume Minas: Governo se prepara para transição e Novo revê rumos após derrota eleitoral
A eleição de Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao governo de Minas Gerais no primeiro turno das eleições de 2026 representa um marco na política estadual. Com 55,4% dos votos válidos, o senador agora foca na transição de governo, enquanto o grupo político que administrou o estado desde 2019, liderado pelo partido Novo, se depara com um cenário de incertezas e a necessidade de reavaliar suas estratégias.
A derrota de Mateus Simões (PSD) para o Executivo, que obteve apenas 4,65% dos votos, e o desempenho eleitoral do Novo, que não elegeu deputados federais por Minas Gerais, alteraram significativamente o equilíbrio de forças políticas no estado. Paralelamente, o PL demonstrou crescimento expressivo, impulsionado pela votação de Nikolas Ferreira para deputado federal. O partido conquistou 21 cadeiras na Câmara dos Deputados e outras 21 na Assembleia Legislativa mineira.
Neste contexto de reorganização política, o governador eleito Cleitinho Azevedo precisa converter sua popularidade em capacidade de gestão. Uma das primeiras medidas tomadas foi designar o vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão, para coordenar os trabalhos de transição. Falcão, com experiência como ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), montou uma equipe com profissionais experientes em administração pública e no setor privado. Essas informações foram divulgadas pela assessoria de Luís Eduardo Falcão.
Comissão de Transição e Primeiros Passos do Governo Cleitinho
A composição da equipe de transição já sinaliza diretrizes para a futura administração. Entre os nomes que integram a comissão estão André Abreu Reis, ex-secretário de Planejamento de Belo Horizonte; Bruno Westin, com passagem pelo Tesouro Nacional; Ana Lúcia de Assis Simões, ex-reitora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM); e o deputado federal eleito Gleidson Azevedo, irmão de Cleitinho. Profissionais ligados ao gabinete do senador também foram incluídos.
O cronograma estabelecido prevê o início das reuniões setoriais de transição em 23 de outubro, com a área de saúde como ponto de partida. Nos dias seguintes, os temas a serem discutidos incluirão infraestrutura, educação, desenvolvimento econômico e segurança pública. Já em novembro, o foco estará em discussões sobre Fazenda, adesão ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) e planejamento orçamentário.
Desafios de Governabilidade e Contas Públicas para o Governo Cleitinho
Apesar da expressiva vitória eleitoral, Cleitinho Azevedo precisará construir uma base parlamentar sólida para garantir a governabilidade. Embora o partido Republicanos tenha eleito quatro deputados estaduais, o PL se configura como a maior bancada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, seguido pelo PT, com 15 cadeiras. A formação de uma maioria parlamentar é vista como um caminho provável, com uma aproximação com o PL sendo considerada a mais natural, dada a convergência entre as legendas no cenário nacional.
O cientista político Adriano Cerqueira, professor do IBMec-BH, aponta que a aproximação entre Cleitinho e o PL é uma tendência, reforçada pelo encontro do governador eleito com Flávio Bolsonaro (PL) em 8 de outubro. Cerqueira prevê que Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, pode atuar como mentor para Cleitinho na administração do estado, possivelmente resultando em uma gestão equilibrada e pragmática.
A situação fiscal de Minas Gerais se apresenta como um dos principais desafios para a próxima administração. O projeto de orçamento estadual para 2027, enviado pelo governo de Mateus Simões, prevê um déficit de R$ 8,869 bilhões. A renegociação da dívida com a União e a necessidade de conciliar investimentos com o equilíbrio das contas públicas serão prioridades inadiáveis.
Cerqueira ressalta que, embora Cleitinho possua condições políticas favoráveis, sua capacidade de administrar crises é uma incógnita. A experiência como vereador, deputado estadual e senador, embora relevante, difere da responsabilidade de chefiar o Poder Executivo, algo que Zema, por exemplo, demonstrou habilidade ao gerenciar. A transição para um cargo de chefia do executivo é uma novidade para Cleitinho.
O comentarista político Rodrigo Lopes considera prematuro afirmar se o governador eleito conseguirá traduzir sua popularidade em gestão e governabilidade eficazes. Ele enfatiza a necessidade de Cleitinho adotar uma postura de administrador, com foco em ajustes e cuidado com as contas públicas, selecionando pessoas competentes para auxiliar na gestão. A capacidade administrativa de Minas Gerais exige responsabilidade fiscal.
Futuro de Mateus Simões e o Novo em Minas Pós-Eleição
A derrota eleitoral de Mateus Simões para o governo de Minas Gerais, terminando em quarto lugar com 530.292 votos, deixa seu futuro político em aberto. Apresentado como sucessor de Romeu Zema (Novo), Simões, que já ocupou o cargo de vice-governador, não conseguiu capitalizar sua experiência administrativa em uma candidatura competitiva. Ele havia declarado anteriormente que encarava sua participação na política como um “experimento sociológico”, disposto a enfrentar temas impopulares.
Segundo Adriano Cerqueira, a dificuldade de Simões em construir uma liderança eleitoral própria foi um fator determinante. Apesar de ser um “bom técnico” e ter auxiliado Zema na gestão do estado, sua candidatura dependeu excessivamente da projeção política do então governador. “Mateus Simões ficou só, ele não teve nenhum padrinho, nenhuma possibilidade de crescimento. E não é carismático, não é uma pessoa que consegue chamar o eleitor para ele”, opina Cerqueira.
Rodrigo Lopes atribui a derrota de Simões à forma como a candidatura foi estruturada, com pouca articulação para a difusão de seu nome. Ele aponta que a direita iniciou a disputa com várias frentes, o que fragmentou o eleitorado. “O eleitor mineiro não conhecia o Mateus. Existem vários fatores que pesam contra esse movimento. Um pouco a personalidade, um pouco a montagem, um pouco a composição daquele momento que foi feita, tardiamente, e que abriu um espaço muito grande para o Cleitinho”, avalia Lopes.
Novo Enfrenta Ciclo de Reavaliação em Minas Gerais
O partido Novo, que esteve à frente da administração estadual por quase oito anos, obteve um resultado limitado nas eleições mineiras, contrastando com conquistas em outras regiões do país. O partido não conseguiu eleger deputados federais por Minas Gerais e manteve apenas as duas cadeiras estaduais que já possuía na Assembleia Legislativa. Os parlamentares reeleitos, Dr. Maurício e Zé Laviola, já possuíam bases eleitorais consolidadas e vieram de outras legendas em 2022.
Adriano Cerqueira sugere que o resultado não representa necessariamente uma rejeição à gestão de Zema, mas sim que a força eleitoral do ex-governador sempre superou a do partido. Ele observa que muitos apoiadores de Zema preferiram votar em Flávio Bolsonaro para a presidência. “Em Minas o Novo nunca foi expressivo, o Zema é que foi. O problema é que o eleitor vê o Zema como o seu governador e o seu presidente é o Bolsonaro”, explica.
Rodrigo Lopes aponta para a perda da “personalidade inovadora” que marcou a eleição de Zema em 2018, indicando que o partido cedeu espaço ao movimento bolsonarista, diluindo sua identidade. Por outro lado, o presidente estadual do Novo, Christopher Laguna, destaca o cumprimento da meta nacional de superar a cláusula de barreira, com a eleição de dez deputados federais. Em Minas, Laguna reconhece que a expectativa de eleger deputados federais não foi atingida, mas ressalta o crescimento da estrutura municipal e a eleição de dois deputados estaduais.
Laguna atribui as dificuldades em Minas ao fenômeno eleitoral de Nikolas Ferreira, cuja votação expressiva concentrou o eleitorado de direita. “O nosso maior objetivo era bater a cláusula de barreira. Então, dentro desse processo aí, obviamente, Minas ajudou bastante para que isso acontecesse. E aqui em Minas nós não conseguimos o deputado federal e muito se dá pelo próprio cenário”, afirma.
Divergências Internas Exponham Disputa sobre o Futuro do Novo em Minas
O Novo em Minas Gerais também enfrenta questionamentos sobre a condução de sua estrutura estadual. Sabrina Sarreta, ex-presidente do diretório municipal de Uberaba, deixou o partido em agosto após divergências com a direção estadual, criticando a perda de autonomia e a priorização de “desejos pessoais de Mateus e Zema, em detrimento dos interesses partidários”. Ela relata que dirigentes partidários passaram a ocupar cargos remunerados no governo, o que contraria os princípios de fundação do partido.
Sarretta afirma que a direção estadual priorizou os interesses do grupo político ligado a Simões, em detrimento da formação de candidaturas e do fortalecimento das bases partidárias. Ela aponta que lideranças de Uberaba alertavam sobre essa situação há anos e que perdeu pré-candidatos relevantes. Após deixar o Novo, Sabrina assumiu a presidência municipal do Republicanos e participou da campanha de Luís Eduardo Falcão, indicando nomes para a equipe de transição do governador eleito.
As divergências também envolveram a candidatura de Marco Antônio Costa, o “Superman”, ao Senado, que, apesar de receber 1.895.603 votos, não conquistou uma vaga. Pessoas próximas à campanha relataram dificuldades na confirmação da candidatura, o que prejudicou articulações políticas. Sabrina atribui a demora ao apoio inicial a Marcelo Aro, que era cotado para disputar o Senado na chapa de Mateus Simões.
Christopher Laguna, presidente estadual do Novo, reconhece que divergências são naturais na vida partidária e que parte das críticas decorre de “disputas internas e de expectativas não atendidas”. Ele defende os resultados alcançados pela estrutura partidária, como o aumento do número de filiados e representantes municipais. “Oito anos de governo Zema, e muito das insatisfações vem de gente que não conseguiu estar no governo Zema”, rebate Laguna.
Laguna anunciou que o Novo mineiro passará por um novo processo de escolha de sua direção nos próximos meses, vendo a renovação como parte do funcionamento da legenda. Ele rejeita a ideia de que a direção estadual tenha prejudicado a candidatura de Superman, afirmando que o partido abriu espaço para a candidatura ao Senado quando houve mudanças nas negociações da aliança eleitoral.





















