Fronteiras: O Coração da Expansão das Facções Criminosas no Brasil
A impressionante expansão das facções criminosas no Brasil nas últimas décadas está intrinsecamente ligada ao controle e à exploração das rotas de tráfico de drogas em suas extensas fronteiras. A geografia brasileira, com acesso privilegiado aos três maiores produtores mundiais de cocaína – Colômbia, Bolívia e Peru –, juntamente com uma infraestrutura logística complexa, tornou o país um ponto nevrálgico na cadeia global do narcotráfico.
O domínio de rotas estratégicas, como a Rota Caipira e as rotas amazônicas, consolida o poder de organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Essas redes criminosas não apenas abastecem o mercado interno, mas também utilizam o Brasil como plataforma para exportação, especialmente para a Europa, segundo aponta o estudo “Floresta em Pó”.
Essa dinâmica perversa ameaça a soberania nacional, com facções estabelecendo um controle territorial significativo. A adaptabilidade dessas organizações em explorar as fragilidades das fronteiras terrestres, fluviais e aéreas é um dos principais desafios enfrentados pelas autoridades brasileiras no combate ao crime organizado.
Rota Caipira: A Veia Principal do Tráfico Terrestre
A Rota Caipira, sob o domínio do PCC, é uma das mais antigas e eficientes vias de entrada de entorpecentes no Brasil. Originária das fronteiras com a Bolívia e o Paraguai, especialmente nas regiões de Ponta Porã e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, essa rota tem como destino principal as grandes metrópoles do Sudeste, incluindo o porto de Santos, em São Paulo.
O delegado Edson Pinheiro dos Santos Júnior, especialista no combate a facções, descreve a Rota Caipira não como uma ficção, mas como um “sofisticado sistema logístico” que explora as vulnerabilidades geográficas. Pousos clandestinos em pistas no interior de estados como São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Paraná são frequentes, aproveitando o relevo plano e o bom tempo para a construção de pistas em meio a canaviais.
“Eles utilizam uma extensa rede de estradas secundárias, vicinais e até fazendas, criando um caminho paralelo e quase invisível que conecta as fronteiras e portos ao consumo massivo na capital e região metropolitana”, explica o delegado. Essa estratégia de “gotejamento logístico” fragmenta o transporte, dificultando apreensões em larga escala e garantindo um fluxo constante para o mercado de drogas.
As cidades do interior paulista atuam como centros de consolidação e redistribuição, onde a droga é fracionada e distribuída em uma variedade de veículos, desde caminhões de carga até carros de aplicativo e veículos oficiais, demonstrando a complexidade e a capilaridade da operação.
Rotas Amazônicas: A Nova Fronteira do Tráfico Fluvial
A Rota Amazônica ganhou proeminência na última década, impulsionada por estratégicas de repressão que levaram à adaptação logística do tráfico. A Lei do Abate, que permitia a interdição de aeronaves suspeitas, forçou a migração do transporte aéreo para as vias fluviais da vasta e complexa geografia amazônica.
O estudo “Floresta em Pó” aponta que a Amazônia brasileira se tornou a segunda principal rota de entrada de drogas no país. São pelo menos 16 “rios de cocaína”, como Abunã, Acre, Amazonas, Caquetá, Madeira, Negro e Purus, que servem como corredores para o transporte de cloridrato de cocaína e pasta-base, conectando a região andina aos polos urbanos brasileiros e aos portos de exportação.
Essa intensificação do tráfico fluvial resultou em um aumento expressivo nas apreensões. Em Rondônia, por exemplo, o aumento foi de 1.031,8% entre 2019 e 2023. No geral, as apreensões na Amazônia Legal cresceram 94% entre 2023 e 2024, evidenciando a escala do problema.
Brasil: Polo Central na Economia Transatlântica da Cocaína
O Brasil se consolidou como um polo central na economia transatlântica da cocaína. Em 2024, foram apreendidas cerca de 138 toneladas de cocaína no país, com o porto de Santos figurando como o segundo maior exportador mundial da droga, considerando o volume de apreensões.
Dados de 2020 revelam que cerca de 71 toneladas de cocaína ligadas ao Brasil e destinadas à Europa foram apreendidas, superando as apreensões vindas do Equador e da Colômbia. Isso posiciona o Brasil como o principal fornecedor da droga para o continente europeu.
Portos do Nordeste também se tornaram corredores logísticos importantes para o envio de cocaína para a Europa e África Ocidental entre 2020 e 2024. A Amazônia brasileira, por sua vez, funciona como área de passagem estratégica para o escoamento da commodity andina em direção aos portos atlânticos.
A Luta Contra a Soberania Ameaçada
A sofisticação logística e a expansão territorial das facções criminosas, explorando as fronteiras terrestres e fluviais, representam um desafio direto à soberania nacional. A capacidade de adaptação e a fragmentação das operações, como no caso do “gotejamento logístico” da Rota Caipira, dificultam a ação das forças de segurança.
O estudo “Floresta em Pó” ressalta que a região entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Paraguai, é um dos pontos mais perigosos do país, palco de diversos conflitos ligados às economias ilícitas. A complexidade do cenário exige estratégias integradas e contínuas para combater o poder crescente dessas organizações.















