Brasil em Posição Privilegiada: Como a Nova “Guerra Fria 2.0” Entre EUA e China Abre Portas para Exportações e Investimentos
A crescente tensão comercial entre Estados Unidos e China, em um cenário comparado a uma “guerra fria 2.0”, está criando um terreno fértil para o Brasil expandir suas exportações e atrair investimentos estrangeiros. A rivalidade entre as duas maiores economias do mundo impulsiona o agronegócio brasileiro e abre novas frentes de negociação, segundo análise do economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics.
Troyjo destaca que o Brasil está cada vez mais próximo dos Estados Unidos na liderança global das exportações agrícolas, um setor crucial para a balança comercial do país. A dinâmica atual, moldada pela disputa entre as superpotências, favorece a inserção brasileira em mercados estratégicos e a atração de capital para setores vitais da economia nacional.
Essas oportunidades, contudo, vêm acompanhadas de desafios que exigirão do Brasil uma estratégia bem definida para maximizar os benefícios. A capacidade de adaptação e a busca por novas parcerias serão fundamentais para consolidar o país como um player importante no cenário econômico global. Conforme informação divulgada pelo economista Marcos Troyjo, a análise foi feita durante o evento “Money Week 2026”, em Balneário Camboriú (SC).
Agronegócio Brasileiro em Ascensão com a Disputa Global
O economista Marcos Troyjo aponta que o avanço das exportações agrícolas brasileiras para a China, impulsionado pela guerra comercial com os EUA, é uma das principais oportunidades. O Brasil atingiu no último ano um total de exportações agrícolas de US$ 169,2 bilhões, apenas US$ 2 bilhões abaixo dos US$ 171 bilhões norte-americanos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA e do Ministério da Agricultura do Brasil. Essa aproximação demonstra a força do setor brasileiro.
Troyjo explica que, ao longo do período de abertura econômica chinesa iniciado em 1978, os Estados Unidos foram o principal fornecedor de alimentos para a China. Contudo, nos últimos cinco anos, o Brasil assumiu essa posição. Essa mudança se deve à necessidade chinesa de garantir o abastecimento para sua população de 1,5 bilhão de habitantes, com renda crescente. A China, apesar de ser um grande produtor, é também o maior importador líquido de alimentos do mundo.
A expectativa é que a demanda chinesa por produtos brasileiros se intensifique, com a redução das importações dos Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Europa. Essa reconfiguração de mercado é uma vantagem clara para o agronegócio do Brasil, que tem demonstrado resiliência e capacidade de expansão. A busca por diversificação de destinos de exportação, hoje concentrados na Ásia, também é incentivada, com potencial de crescimento notável no mercado americano, onde a participação brasileira nas importações totais dos EUA oscila entre 0,8% e 1,1%.
Acordo Mercosul-UE Impulsiona Exportações e Abre Novos Mercados
Outra frente promissora identificada por Troyjo é o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE). Negociado quando ele era secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, o acordo, em vigor desde 1º de maio deste ano, zerou ou reduziu tarifas para cerca de 5 mil produtos brasileiros. Nos primeiros dois meses, as vendas do Brasil à UE cresceram US$ 2 bilhões em relação ao mesmo período de 2025, uma alta de 26%, segundo a ApexBrasil.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que o acordo pode ampliar as exportações brasileiras em até US$ 7 bilhões. Troyjo atribui parte dessa aceleração ao aumento do protecionismo norte-americano, que levou os europeus a buscar novas parcerias. A União Europeia representa um mercado com 450 milhões de habitantes e um PIB 15% maior que o da China, com um terço da população, o que demonstra seu vasto potencial como destino das exportações brasileiras.
Infraestrutura Brasileira: Gargalo Histórico se Torna Ativo Estratégico
O aumento das exportações brasileiras para China e UE também evidencia um desafio conhecido do país: a capacidade de escoar essa produção. No entanto, Troyjo vê esse gargalo histórico de infraestrutura (irrigação, armazenamento, portos e transporte ferroviário) sob uma nova perspectiva no atual cenário de tensão comercial. Em um contexto internacional de grave insegurança alimentar e energética, os problemas de infraestrutura do Brasil se tornam preocupações globais.
Essa mudança de percepção torna o setor de infraestrutura brasileiro um alvo mais atraente para investimento estrangeiro. O setor de logística brasileiro deve receber R$ 300 bilhões em investimentos, somando concessões de rodovias, ferrovias e portos, segundo o Ministério dos Transportes. Entre 2023 e 2025, leilões desse tipo de ativo já resultaram em contratos de R$ 262 bilhões, demonstrando o apetite do mercado por esses ativos.
Minerais Críticos e a Necessidade de Reforma Tributária para Agregar Valor
O economista também aponta os minerais críticos como outra oportunidade estratégica para o Brasil. A relevância desses minerais cresce à medida que se tornam insumos para setores como tecnologia da informação, defesa e robótica. Troyjo ressalta que a posse de reservas desses minerais, a “loteria geológica”, não garante por si só ganhos econômicos significativos.
A mineração e o refino exigem grande investimento de capital e têm longo prazo de maturação. A carga tributária brasileira, que pode chegar a 33% sobre essas atividades, enquanto outros países cobram entre 18% e 19%, é vista como um obstáculo para a agregação de valor no território nacional. A resolução desse entrave tributário será crucial para definir se o Brasil apenas fornecerá a matéria-prima para a nova disputa tecnológica entre EUA e China, ou se conseguirá capturar parte do valor gerado por ela.


















