Do fruto amazônico à bebida sofisticada: o “vinho” de açaí ganha espaço no mercado nacional
Empreendedores da região amazônica, nos estados do Acre, Amapá e Pará, estão revolucionando o mercado com uma novidade intrigante: o fermentado de açaí. Popularmente conhecido como “vinho de açaí”, este produto artesanal, apesar de não poder usar o termo “vinho” oficialmente por não ser feito de uva, tem conquistado consumidores em todo o Brasil. A bebida utiliza o açaí, fruto nativo da Amazônia, e tem ganhado destaque devido ao seu sabor único e à qualidade aprimorada com suporte técnico da Embrapa.
A ideia de transformar o açaí em uma bebida fermentada começou a ganhar força por volta de 2020. O mestre cervejeiro Marcos Vieira, no Acre, foi um dos pioneiros ao testar a fruta em processos de fabricação de hidromel. Ele descobriu o potencial do açaí para gerar uma bebida fermentada de alta qualidade. Sua iniciativa inspirou outros produtores, como o casal João e Janete Capiberibe, no Amapá, que iniciaram seus próprios testes caseiros em 2022.
Com o apoio crucial da Embrapa Amapá, que ofereceu conhecimento em boas práticas de fabricação e capacitação para comunidades ribeirinhas, a produção do fermentado de açaí tem se expandido. Essa colaboração técnica tem sido fundamental para aproveitar a abundância da fruta na região e agregar valor aos produtos amazônicos. Conforme informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo, a bebida está se tornando uma nova representação da riqueza gastronômica amazônica.
Semelhanças que encantam: por que o “vinho” de açaí lembra o vinho de uva
A comparação do fermentado de açaí com o vinho tradicional de uva se dá principalmente pelas características visuais e sensoriais. O açaí é naturalmente rico em antocianinas, os mesmos pigmentos que conferem a cor arroxeada intensa às uvas tintas. Após o processo de fermentação, a bebida desenvolve uma acidez e adstringência notáveis, sensações que remetem à experiência de degustar um vinho seco.
Especialistas da Embrapa explicam que, em testes cegos, consumidores com menos familiaridade podem até confundir o fermentado de açaí com um vinho de uva. No entanto, a bebida possui uma identidade sensorial própria, que vai além de simplesmente imitar o vinho tradicional, oferecendo uma experiência autêntica e surpreendente.
A transformação pelo álcool: o que muda da polpa ao fermentado
O processo de fermentação altera profundamente a composição do açaí. Enquanto a polpa fresca preserva o sabor característico do fruto, o fermentado passa por uma metamorfose: os açúcares são convertidos em álcool, resultando em novos aromas e sabores complexos.
Uma análise realizada pela Embrapa Agroindústria Tropical revelou um dado curioso: apenas 12% dos consumidores habituais de vinho conseguiram identificar o aroma de açaí na bebida pronta. Isso demonstra que a experiência sensorial do fermentado de açaí é mais próxima da complexidade de um vinho do que de um suco, apresentando uma estrutura de corpo e paladar que desafia as expectativas.
Mercado em expansão: o “vinho” de açaí busca escala nacional
O mercado para o fermentado de açaí ainda é considerado pequeno e predominantemente artesanal, mas apresenta um forte potencial de expansão. Vinícolas como a Família Avelar, no Pará, e a Florisa, no Acre, já comercializam seus produtos para todos os estados brasileiros, utilizando principalmente canais de venda online e participação em feiras especializadas.
Além do açaí, os produtores amazônicos estão explorando o potencial fermentado de outras frutas nativas, como cupuaçu, bacuri e taperebá. O grande desafio atual reside na regularização da produção e na padronização das bebidas para que possam atingir uma escala comercial maior. Estratégias que integram gastronomia e turismo de experiência têm se mostrado caminhos promissores para apresentar essa novidade ao público e consolidar o fermentado de açaí como um produto distintivo do Brasil.





















