Erika Hilton usa caso chocante para defender regulamentação de redes sociais, mas é acusada de “fraude retórica”
Um caso de tortura de animais e indução ao suicídio de adolescentes em lives chocou o país e reacendeu o debate sobre a regulamentação das redes sociais. A deputada Erika Hilton utilizou o episódio para reforçar sua posição, mas a estratégia retórica foi criticada como uma falácia antiga.
A forma como a deputada conectou o crime com a necessidade de regulamentar plataformas digitais foi alvo de controvérsia. A crítica central é que a dor e a tragédia foram instrumentalizadas para defender uma agenda específica de controle estatal.
A discussão levanta questões importantes sobre a liberdade de expressão, a segurança pública e o papel do Estado na moderação de conteúdo online. A matéria explora a tática retórica utilizada e seus possíveis objetivos, conforme análise divulgada.
A Falácia “Fortaleza e Campo” no Discurso de Hilton
A deputada Erika Hilton publicou em seu perfil: “Um homem foi preso por torturar e matar mais de CEM animais em lives. A investigação também aponta que ele induzia adolescentes à automutilação e ao suicídio. Mas, para a direita brasileira, regulamentar as redes sociais e as big techs para impedir esses crimes é ‘censura'”. Esta formulação foi identificada como um truque retórico conhecido como “Fortaleza e Campo”, cunhado pelo filósofo Nicholas Shackel.
Nessa tática, a “fortaleza” inexpugnável é a defesa contra a tortura de animais e o incentivo ao suicídio, algo que ninguém em sã consciência defenderia. O “campo aberto”, por outro lado, é a posição real e contestável: a regulamentação estatal das redes sociais e das big techs, com seu potencial de controle político sobre o fluxo de informações.
O truque consiste em usar a fortaleza como escudo para defender o campo. Quem se opõe à regulamentação das redes sociais, nesse contexto, é associado a quem defende a crueldade contra animais e a morte de jovens, uma associação indevida que busca deslegitimar o debate.
Crimes Comuns Já São Tipificados, Lei Nova Não é Necessária
A crítica aponta que a frase de Hilton funde dois assuntos distintos. De um lado, a punição de crimes comuns praticados no ambiente virtual, como tortura e indução ao suicídio. O Estado de Direito, neste caso, funcionou: a polícia investigou, identificou e prendeu o suspeito.
O Código Penal brasileiro já tipifica crimes como maus-tratos, instigação ao suicídio e crimes cibernéticos. O caso em Fortaleza demonstrou que as leis existentes são suficientes para lidar com tais condutas, sem a necessidade de uma nova legislação específica para as plataformas digitais.
De outro lado, está o projeto de regulamentação estrutural das redes sociais, que envolve controle do fluxo de informação, monitoramento de conteúdo político e responsabilização civil de intermediários. Tratar esses temas como um só é considerado, na melhor das hipóteses, confusão, e na pior, fraude retórica.
A Instrumentalização da Dor para Controle
A premissa oculta no argumento de Hilton é que a regulamentação proposta impediria crimes absurdos. No entanto, o próprio caso investigado refuta essa tese, uma vez que o criminoso foi preso pelas autoridades competentes. A tese de que apenas uma nova regulamentação protegeria vítimas é uma hipótese empírica não demonstrada, alçada ao status de evidência pelo choque emocional das imagens.
Os mais de cem animais torturados e os adolescentes empurrados para a morte não seriam o fim da análise de Erika Hilton, mas sim o meio. A dor real de seres reais é convertida em munição para uma agenda específica de poder estatal. Chamar isso de “defesa das vítimas” exige um alto grau de autoengano ou revela uma obsessão com controle que busca calar adversários políticos.
A obsessão por controle, segundo a análise, tem uma lógica própria que não se confunde com a segurança pública. As plataformas digitais representam um desafio à hegemonia cultural que a esquerda detinha nos grandes meios de comunicação. A internet quebrou esse monopólio, permitindo a circulação de narrativas concorrentes sem o filtro das redações tradicionais.
Liberdade de Expressão vs. Segurança Pública: Um Dilema Real
A visão de Hilton é caracterizada como “monismo moral”, a incapacidade de reconhecer que valores legítimos, como a liberdade de expressão e a segurança pública, podem entrar em conflito. Para os monistas morais, não há tensão ou dilema, apenas um bem supremo a ser alcançado, e quem discorda serve ao mal.
O tuíte da deputada é visto como um documento preciso dessa visão de mundo: nenhuma tensão, nenhum dilema na regulamentação, apenas a boa vontade estatal de um lado e a cumplicidade com torturadores do outro. A crítica ressalta que qualquer escolha em termos de regulamentação implica custos e sacrifícios de outros bens importantes.
A análise conclui que a “regulamentação” é o nome contemporâneo para a reconquista do filtro editorial perdido, uma ferramenta para controlar o fluxo de informações e silenciar narrativas divergentes, utilizando a comoção gerada por crimes hediondos como justificativa.





















