Santa Catarina, gigante da pesca, vê seu molusco mais valioso sumir do mapa. Entenda os motivos por trás do desaparecimento da vieira.
Santa Catarina é um polo da indústria pesqueira nacional, movimentando R$ 3,8 bilhões anualmente e liderando a produção de ostras e vieiras. No entanto, uma distorção alarmante se revela nos números: enquanto as ostras prosperam em escala industrial, a produção de vieiras despencou, chegando a menos de uma dúzia de produtores ativos em todo o estado, concentrados em Florianópolis.
Essa escassez elevou o valor da vieira a patamares estratosféricos. No varejo, a dúzia pode custar R$ 120, quase cinco vezes o preço da ostra. Em restaurantes renomados, o valor salta para R$ 215 a dúzia, evidenciando uma demanda reprimida e um potencial econômico subutilizado. Mas, afinal, por que um produto tão valorizado está em vias de extinção?
A resposta não reside na falta de conhecimento técnico. Santa Catarina foi pioneira no desenvolvimento da tecnologia de cultivo de vieiras no Brasil, com pesquisas iniciadas na década de 1990. Todo o protocolo de cultivo, desde a produção de larvas até a engorda e comercialização, foi aprimorado. Contudo, a sustentabilidade dessa cadeia produtiva esbarra em questões ambientais, concorrenciais e de infraestrutura. Conforme dados do Observatório Agro Catarinense, a produção atingiu um pico de 42 toneladas em 2021, mas desde então a queda tem sido acentuada, acompanhada pela diminuição de produtores dispostos a enfrentar os desafios do cultivo.
O cultivo exigente da vieira: um ciclo longo e com altas perdas
O cultivo da vieira é um processo intrinsecamente mais complexo e custoso quando comparado ao da ostra. A maricultora Rita de Cássia Rodrigues, que cultiva a espécie em Florianópolis, relata que a taxa de perda pode chegar a 85% das sementes colocadas na água, enquanto na ostra essa perda esperada é de 30%. Esse alto índice de mortalidade é um dos principais fatores que desencorajam novos produtores.
A sobrevivência da vieira, segundo o pesquisador Guilherme Sabino Rupp, da Epagri, é extremamente sensível às condições ambientais, especialmente a salinidade da água. Faixas de salinidade abaixo de 23 partes por mil são letais, e entre 23 e 29, o molusco sofre estresse fisiológico, comprometendo seu crescimento. Condições ideais exigem salinidade próxima à oceânica, entre 36 e 37 partes por mil, o que nem sempre é encontrado nas áreas demarcadas para maricultura.
Áreas de cultivo inadequadas e a concorrência das macroalgas
Um dos entraves para o cultivo da vieira em Santa Catarina é a localização das áreas demarcadas para maricultura. Segundo Rupp, muitas dessas áreas, desenhadas prioritariamente para ostras e mexilhões, ficam em baías onde a chuva pode reduzir drasticamente a salinidade, tornando-as inadequadas para a espécie. A falta de novas áreas com as características ideais de salinidade e profundidade limita a expansão.
A ascensão do cultivo de macroalgas também representa um desafio significativo. Essa atividade, mais simples e com retorno financeiro mais rápido, tem atraído produtores que antes se dedicavam à vieira. A facilidade de manejo e a rentabilidade a curto prazo das macroalgas criam um efeito dominó, onde produtores expandem o cultivo de algas em detrimento do espaço antes destinado à vieira, intensificando a disputa por áreas no mar catarinense.
Um futuro incerto para o molusco de luxo
Apesar das dificuldades, o potencial da vieira catarinense é inegável. A demanda existe, os preços são elevados e a tecnologia de cultivo está consolidada. No entanto, para que a espécie volte a prosperar, são necessários investimentos significativos e políticas públicas voltadas para a demarcação de novas áreas de cultivo, um fornecimento mais estável de sementes e um salto na profissionalização dos produtores.
A maricultora Rita de Cássia Rodrigues, por exemplo, prefere manter seu cultivo em pequena escala, atrelado ao seu restaurante, devido aos riscos envolvidos. Ela vislumbra um futuro onde a vieira possa se tornar um atrativo turístico gastronômico, semelhante à Rota das Ostras, mas reconhece que isso exigiria um investimento e uma dedicação que, com seus atuais 50 anos, ela não se sente mais disposta a empreender. O futuro da vieira em Santa Catarina depende, portanto, de novos atores dispostos a apostar em um produto de alto valor agregado, mas que exige condições e manejo específicos.





















