O Comando Vermelho: Ascensão e Domínio de uma Potência Criminosa no Brasil
Nascido nas entranhas do sistema prisional brasileiro, o Comando Vermelho (CV) transcendeu suas origens para se tornar uma força criminosa com ramificações profundas em todo o território nacional e até no exterior. Sua atuação abrange desde o domínio de vastos territórios e a exploração de serviços da economia formal até a preocupante infiltração em serviços públicos e na esfera política.
A história do CV é marcada por um erro histórico na segurança pública do Brasil, que serviu de modelo para outras facções, como o PCC. A mistura de detentos comuns com presos políticos e militantes de esquerda no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ), a partir de 1979, foi o catalisador para a formação do que viria a ser o Comando Vermelho.
Esses presos políticos, com sua experiência em organização e táticas de resistência, acabaram por transferir seus conhecimentos aos criminosos comuns. Assim, surgiu a Falange Vermelha, precursora do CV. Essa união, conforme explica Paulo Storani, ex-capitão do Bope e especialista em segurança pública, foi fundamental para a expansão das atividades criminosas para fora dos presídios, visando sustentar a facção e dar suporte a familiares e advogados.
A expansão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro no início dos anos 1980 coincidiu com essa necessidade de novas fontes de receita. Assaltantes de banco, que formavam a base do CV, viram no tráfico uma atividade mais lucrativa e menos arriscada, migrando em massa para essa nova empreitada. O controle de territórios em comunidades se iniciou com a tomada de pontos de venda de drogas de grupos independentes.
A Evolução do Controle Territorial e o Assistencialismo Inicial
Nos primeiros anos, até a década de 1990, o Comando Vermelho buscava preservar uma imagem positiva nas comunidades. As lideranças iniciais, influenciadas pelo contato com guerrilheiros na prisão, adotavam uma estratégia de “zona de proteção” através da cooptação popular. Isso se manifestava através de ações assistencialistas, como a compra de remédios, brinquedos, alimentos, auxílio em sepultamentos e festas, além da prevenção de crimes locais.
Essa abordagem criava uma simpatia natural entre os moradores. No entanto, essa estratégia se perdeu com o tempo, à medida que as lideranças originais foram substituídas por outras mais jovens, violentas e menos “instruídas”, conforme relata Storani. A perda desse elo com a comunidade abriu caminho para uma atuação mais predatória.
Expansão Nacional e Diversificação dos Negócios Criminosos
Após consolidar seu domínio no Rio de Janeiro, explorando o tráfico de drogas e serviços como gás, água e internet nas comunidades até os anos 2010, a expansão nacional do CV tornou-se uma evolução natural. O grupo passou a diversificar seus negócios criminosos em escala nacional.
Um exemplo dessa diversificação é o chamado “cybercangaço”, a invasão e domínio da distribuição de internet em cidades do Nordeste e da Baixada Fluminense. Além disso, a facção tem investido na invasão e grilagem de grandes áreas públicas e particulares. No Ceará, pelo menos cinco provedores de internet encerraram suas operações em 2025 devido a ataques e ameaças, conforme a Uniproce.
Na Amazônia, paralelamente ao domínio das rotas de narcotráfico fluvial, o Comando Vermelho aplica o mesmo modus operandi de invasão e grilagem de terras desde 2022. A derrubada de madeira, o garimpo ilegal e a valorização das terras em áreas de difícil acesso se tornaram atrativos econômicos adicionais.
A Lógica da Expansão Contínua e a Incapacidade do Estado
A lógica por trás da expansão contínua do Comando Vermelho é simples: quanto mais pessoas e território, maior o lucro. Grupos criminosos passaram a explorar e controlar todas as atividades comerciais dentro das comunidades, desde a venda de cigarros e bebidas até o fornecimento de mercados, monopólio de água e gás, e serviços de internet. Isso torna as grandes comunidades alvos constantes de facções rivais.
Para Paulo Storani, a contínua expansão do CV desde a década de 1980 demonstra uma “incapacidade muito grande do poder público como um todo de lidar com a criminalidade crescente no país”. A trajetória da facção evidencia um padrão de crescimento que se alimenta da fragilidade estatal e da exploração de novas oportunidades econômicas ilícitas.
O Comando Vermelho, que começou como uma organização dentro de um presídio, hoje representa um complexo esquema criminoso que afeta a economia, os serviços públicos e a política brasileira, exigindo respostas eficazes e coordenadas do Estado para conter sua expansão e mitigar seus impactos devastadores.















