Esquerda em Santa Catarina: O Difícil Caminho para a Relevância em um Estado Conservador
Santa Catarina, historicamente, consolidou um cenário político dominado pela direita e pelo centro. Desde a redemocratização, nenhum partido de esquerda jamais venceu a disputa pelo governo estadual, um fato estrutural que explica as dificuldades atuais desse campo ideológico em se firmar como alternativa de poder.
A análise de especialistas aponta para uma hegemonia de direita e centro desde os anos 1980, com legendas progressistas participando de coalizões, mas sem liderar projetos estaduais. O desempenho eleitoral recente reforça essa tendência, com a direita ampliando sua representatividade em ambas as esferas, federal e estadual.
O ano de 2018 marcou um ponto de inflexão, com a forte influência da “onda Bolsonaro” impulsionando candidaturas conservadoras. Em 2022, apesar de um grande número de candidatos, o domínio ideológico da direita se manteve, com mais de 80% dos votos no primeiro turno. A esquerda, representada pelo petista Décio Lima, chegou ao segundo turno beneficiada pela divisão dos adversários, mas enfrentou um forte apoio ao candidato de direita. Conforme informações divulgadas por especialistas em ciência política, a dificuldade da esquerda em Santa Catarina está diretamente ligada à pauta de costumes, reforçada pelo ambiente de polarização nacional.
A Consolidação da Direita e a Nova Cara Ideológica em SC
O professor Julian Borba, da UFSC, destaca que 2018 foi um divisor de águas, impulsionando a eleição de Carlos Moisés ao governo pelo PSL e fortalecendo a “onda Bolsonaro” no estado, que registrou o mais expressivo desempenho do então presidente em 2018 e 2022. Essa força se refletiu nas urnas, com a direita elegendo a maioria dos deputados federais e estaduais em ambas as eleições.
A direita catarinense vem passando por uma transformação, com o declínio de famílias políticas tradicionais e o surgimento de um perfil mais ideológico e focado em pautas morais e de segurança pública. Borba aponta que a fragmentação partidária, iniciada em 2018, mostrou sinais de estabilização em 2022.
Raízes Históricas e Culturais do Conservadorismo Catarinense
Daniel Pinheiro, pesquisador da Udesc, reforça que a formação social, cultural e política de Santa Catarina está historicamente ligada ao centro e à direita. Os valores econômicos e sociais predominantes no estado são mais conservadores, com o poder econômico e político intimamente conectados ao empresariado local.
Andreia Maidana, doutora em Ciência Política, complementa que a dificuldade da esquerda não reside primariamente na agenda econômica, mas sim na “pauta de costumes”. A afinidade histórica com o tradicionalismo e o conservadorismo, aliada à valorização do mérito pessoal, herança cultural das correntes imigratórias europeias, molda o eleitorado catarinense.
Estratégias para 2026: Pragmatismo e Frentes
As pesquisas para 2026 indicam uma preferência pela reeleição do atual governador Jorginho Mello, com o nome da esquerda, Décio Lima, aparecendo em cenários de segundo turno. Andreia Maidana sugere que a estratégia da esquerda em Santa Catarina exige pragmatismo, com a possibilidade de compor frentes como um caminho mais viável diante do “antipetismo estrutural”.
Para romper essa barreira e alcançar o eleitorado religioso e conservador, a consultora política sugere priorizar temas de impacto direto na vida cotidiana, como saúde, educação e segurança. Essa abordagem, segundo ela, tem “grandes chances de o eleitor avaliar e, quem sabe, (re)calcular o seu voto quando determinada política pública impacta diretamente e positivamente na sua vida”.





















