Alerta Nacional: 88 Facções Criminosas Seguindo o “Modelo” de PCC e CV se Espalham Pelo Brasil
Um cenário preocupante de expansão do crime organizado no Brasil foi revelado por um levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária (Dipen) da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O estudo, realizado no final de 2024, identificou a existência de pelo menos 88 grupos criminosos que operam sob o modelo de facções, inspirados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e pelo Comando Vermelho (CV).
Esses grupos, que vão desde o “Bonde dos Maluco” até o “Trem Bala”, demonstram uma estrutura e atuação que se assemelha aos grandes cartéis do crime, visando lucro através de atividades ilícitas contínuas, com destaque para o tráfico de drogas. A influência dessas organizações é tão vasta que elas já se fazem presentes em todas as 27 unidades da federação, incluindo o Distrito Federal.
Conforme a definição da Senappen, as facções criminosas se caracterizam pela busca de lucro por meio de atividades ilícitas de alta demanda, utilizando força, hierarquia com viés ideológico e enriquecimento ilícito para manter suas operações. Quanto mais essas características estão presentes, maior o impacto na segurança pública, segundo o órgão. O levantamento foi baseado em 141 relatórios de agências estaduais de inteligência.
21 Facções de Alto Impacto no Sistema Penitenciário
O levantamento aponta que 21 dessas organizações criminosas são consideradas de alto impacto no sistema penitenciário. Desses grupos, impressionantes 98% estão presentes nos sistemas prisionais e 96% atuam nas ruas, demonstrando uma forte conexão entre o ambiente carcerário e a criminalidade externa. Além disso, 98% possuem uma estrutura hierárquica bem definida, o que facilita a coordenação e a execução de suas atividades.
Pelo menos 12 dessas facções de alto impacto já expandiram suas operações para mais de um estado, evidenciando uma capacidade de articulação e alcance territorial crescente. A maioria, 98%, também demonstra ter uma capacidade financeira relevante, o que sustenta suas operações e expansão. Apenas PCC e CV possuem, no entanto, alcance nacional e internacional consolidado.
Região Sul Lidera em Diversidade de Facções
A análise regional revela que a Região Sul é a que concentra a maior diversidade de facções criminosas, com 24 grupos mapeados. A Região Sudeste aparece em seguida, com 18 grupos. O Nordeste e a Região Norte registram a atuação de 14 grupos criminosos cada, enquanto o Centro-Oeste possui 10 facções atuantes.
São Paulo se destaca como o único estado onde o PCC atua de forma hegemônica. Já o Rio de Janeiro, apesar da predominância do Comando Vermelho, enfrenta a concorrência de milícias e outras facções como Povo de Israel, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando Puro. Em outros estados, a presença de pelo menos dois grandes grupos criminosos é comum.
O Sistema Prisional Como “Escritório do Crime”
Especialistas apontam que as cadeias prisionais funcionam como verdadeiros “escritórios do crime”. É de dentro desses ambientes, muitas vezes com controle falho pelo poder público e em condições precárias, que os líderes traçam planos e enviam ordens para as ruas. A superlotação e o déficit de vagas, que atinge cerca de 191 mil no país, facilitam a cooptação de novos membros, que entram como detentos comuns e se tornam parte do exército das facções.
O Brasil possui aproximadamente 683 mil detentos, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). As facções têm suas raízes no sistema prisional, com o Comando Vermelho surgindo no Rio de Janeiro nos anos 1970 e o PCC em São Paulo em 1993. O crescimento do déficit de vagas prisionais impulsionou o surgimento e fortalecimento de organizações locais, que passaram a operar uma espécie de autogestão dentro das unidades.
Solução Exige Abordagem Firme e Integrada
Celeste Leite dos Santos, promotora em Último Grau do Ministério Público de São Paulo, em entrevista, descreveu o levantamento como um “retrato contundente do atual estágio da criminalidade organizada no Brasil”. Ela ressaltou que o PCC e o CV não apenas influenciam, mas também servem de modelo para outras organizações que se multiplicam por todo o país, transformando-se em “verdadeiras corporações do crime”.
Diante desse cenário, a promotora afirma que existe solução, mas ela exige uma abordagem firme, integrada e, acima de tudo, comprometida com a proteção da vida e da dignidade humana. A análise detalhada do crime organizado, utilizando ciência de dados, permite identificar as redes e a abrangência territorial das facções, oferecendo uma visão clara de suas áreas de influência e auxiliando no planejamento de estratégias de combate mais eficazes.















