Ser mãe já é, por si só, uma jornada de descobertas, desafios e transformações. Mas quando o desenvolvimento de um filho foge do esperado, muitas mulheres passam a viver uma realidade que poucos conseguem compreender: a maternidade atípica.
É nesse lugar entre o amor, a busca por respostas e a necessidade de ajudar os próprios filhos que muitas mães encontram também um propósito.
Para a neuroterapeuta Fernanda Albertoni, essa experiência mudou não apenas sua vida pessoal, mas também a forma como ela enxerga o cérebro humano e o desenvolvimento.
“Quando você se torna mãe atípica, você passa a estudar, pesquisar e observar seu filho de uma forma muito profunda. Não é apenas teoria, é a vida acontecendo todos os dias dentro da sua casa”, conta.
Essa vivência trouxe um olhar mais sensível e atento para o trabalho que hoje realiza com outras crianças e famílias.

O cérebro por trás do comportamento
Na prática clínica, Fernanda trabalha com abordagens baseadas na neurociência que buscam compreender algo fundamental: o comportamento e o aprendizado muitas vezes é reflexo do estado do sistema nervoso.
Quando o cérebro está em estado constante de alerta, o indivíduo pode apresentar dificuldades de atenção, irritabilidade, alterações de sono e desafios na regulação emocional.
“Durante muito tempo os comportamentos foram vistos apenas como birra ou falta de limites. Hoje sabemos que, em muitos casos, o cérebro está simplesmente desorganizado e precisa de ajuda para se regular”, explica.
É a partir dessa compreensão que entram as intervenções terapêuticas baseadas na regulação do sistema nervoso.

Neuromodulação: estimulando o cérebro a se reorganizar
Entre os recursos utilizados em seu trabalho está a neuromodulação do nervo vago auricular, uma técnica que estimula pontos específicos da orelha conectados ao nervo vago — uma das principais vias de comunicação entre cérebro e corpo.
Esse nervo participa da regulação de funções importantes, como batimentos cardíacos, respiração, digestão e também da resposta ao estresse.
Ao estimular essa via neural, é possível favorecer um estado fisiológico mais equilibrado, permitindo que o cérebro saia de um estado de alerta constante e passe a funcionar de forma mais organizada.
“Quando o sistema nervoso começa a se regular, muitas coisas mudam. A criança consegue dormir melhor, as crises diminuem, prestar mais atenção, lidar melhor com emoções e aproveitar mais as experiências de aprendizagem”, afirma.
Quando ciência e experiência caminham juntas
A maternidade atípica trouxe para Fernanda uma compreensão ainda mais profunda da realidade vivida por muitas famílias.
Mais do que protocolos e técnicas, ela acredita que o acolhimento e a escuta são partes fundamentais do processo terapêutico.
“Muitas mães chegam cansadas, inseguras, sem saber mais o que fazer. Eu conheço esse sentimento. E isso muda completamente a forma como eu conduzo meu trabalho.”
Para ela, cada criança é única e precisa ser vista em sua individualidade.
“O cérebro é plástico, ele tem capacidade de se reorganizar. Mas para isso ele precisa de estímulos corretos, repetição, direcionamento e, principalmente, um ambiente de segurança.”
Um caminho de esperança para muitas famílias
Embora os desafios do desenvolvimento infantil possam trazer incertezas, a neurociência tem mostrado cada vez mais que o cérebro possui uma grande capacidade de adaptação e mudança.
Com intervenções adequadas e apoio familiar, muitas crianças conseguem desenvolver novas habilidades e encontrar caminhos de regulação emocional e aprendizagem.
“Como mãe e como profissional, acredito muito no potencial de cada cérebro. Muitas vezes o que falta não é capacidade, mas sim o estímulo certo.”
Uma mensagem para outras mães
Para as mães que vivem a maternidade atípica, Fernanda deixa uma mensagem de acolhimento.
“Você não está sozinha. A jornada pode ser difícil, mas também pode ser cheia de descobertas e crescimento. Quando entendemos o funcionamento do cérebro, conseguimos olhar para nossos filhos com mais compreensão e menos culpa.”
Entre a ciência e o coração, a maternidade atípica também pode se transformar em um caminho de propósito, cuidado e transformação para muitas famílias.



















