Venezuela: Ameaça de Retorno em Massa de Trabalhadores e o Risco para Frigoríficos Brasileiros
A recente captura do ditador Nicolás Maduro e a promessa de transição democrática na Venezuela podem gerar um efeito cascata inesperado para a economia brasileira, especialmente para o setor de frigoríficos. Mais de 7 mil venezuelanos, que representam 19% da mão de obra imigrante formal no Brasil, atuam em abatedouros e processamento de carnes, e um possível retorno em massa pode desestabilizar um setor vital para as exportações brasileiras, principalmente para a China.
Esses trabalhadores, concentrados em segmentos de alta exportação como aves, suínos e bovinos, são cruciais para suprir a crescente demanda internacional. A saída repentina desses profissionais deixaria um vácuo difícil de preencher em um mercado já marcado pela escassez de mão de obra qualificada, levantando preocupações sobre a capacidade de produção e a continuidade dos negócios.
A situação se agrava com a desqualificação de frigoríficos americanos para exportar à China em 2025, o que impulsionou a participação brasileira no mercado asiático. O Brasil já fornece mais da metade da carne bovina importada pela China, e qualquer interrupção na cadeia produtiva pode ter consequências significativas. Os dados do Caged revelam a dimensão do problema, com 4 mil venezuelanos em abates de aves, 2,2 mil em suínos e 1 mil em bovinos, setores que mais dependem desse contingente.
Exportações em Alta e o Fantasma da Escassez de Mão de Obra
O ano de 2025 se mostra promissor para as exportações brasileiras de carne para a China. As vendas de carne e miudezas para o país asiático atingiram US$ 9,8 bilhões em 2024, um aumento de 25,8% em relação ao ano anterior, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A aprovação de novos produtos, como pato, peru e miúdos de frango, pode gerar receitas adicionais superiores a R$ 1 bilhão, conforme aponta Theo Paul Santana, especialista em negócios Brasil-China.
No entanto, a potencial saída de trabalhadores venezuelanos lança uma sombra sobre esse cenário otimista. Franciele Pompeo de Mattos, da Fundação Gaúcha do Trabalho e da Ação Social (FGTAS), alerta para o risco iminente. “Se muitos desses trabalhadores retornarem à Venezuela, a indústria enfrentará dificuldades sérias. Já há vagas sem preencher”, afirma.
A FGTAS destaca que os venezuelanos se concentram em regiões com frigoríficos e apresentam menor rotatividade, o que reduz custos para as empresas. A eventual debandada forçaria o setor a buscar substitutos em um mercado já saturado e com pouca oferta, impactando diretamente a capacidade exportadora do Brasil.
Sul do Brasil: O Epicentro da Mão de Obra Venezuelana nos Frigoríficos
A região Sul do Brasil é a que mais emprega imigrantes venezuelanos, especialmente em frigoríficos. Dos cerca de 38 mil postos de trabalho ocupados por venezuelanos entre janeiro e novembro de 2025, aproximadamente 28 mil estão nos estados do Sul, representando 73% do total. Santa Catarina lidera com 11,7 mil vagas, seguida pelo Paraná com 10 mil e o Rio Grande do Sul com 6 mil.
Cidades como Curitiba (PR), São Paulo (SP) e Chapecó (SC) concentram o maior número de venezuelanos interiorizados pela Operação Acolhida, programa federal que realoca migrantes. Além dos frigoríficos, outros setores como supermercados, construção civil e restaurantes também dependem significativamente dessa força de trabalho, enfrentando dificuldades crônicas de contratação.
Desafios e Oportunidades: Qualificação e Integração no Mercado Brasileiro
Apesar da importância para a economia, muitos venezuelanos com formação superior, como engenheiros e médicos, acabam ocupando cargos operacionais devido a gargalos na validação de diplomas. Paulo Sérgio Almeida, oficial de Meios de Vida do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), aponta essa subutilização da mão de obra qualificada como um ponto de atenção.
Por outro lado, essa qualificação desperdiçada representa uma oportunidade para empresas brasileiras. Theo Paul Santana, da Destino China, sugere que a integração desses profissionais pode trazer acesso a talentos com conhecimento do mercado venezuelano e domínio do espanhol, algo valioso para futuras relações comerciais e reconstrução da economia venezuelana.
Incerteza na Venezuela, Estabilidade no Brasil
Atualmente, a maioria dos venezuelanos no Brasil não planeja retornar. A busca por estabilidade e empregos formais com carteira assinada é um fator determinante, muitos inclusive trazem familiares. A incerteza sobre o futuro da Venezuela ainda é dominante, tornando o retorno uma opção pouco atrativa no momento.
A experiência demonstra que os trabalhadores venezuelanos tendem a ter menor rotatividade, o que se traduz em redução de custos com recrutamento e treinamento para as empresas. Contudo, a consolidação de um regime democrático e a estabilização econômica na Venezuela podem, no futuro, tornar o retorno mais viável, especialmente para profissionais qualificados, gerando um desafio para a indústria brasileira.















