Facções brasileiras PCC e CV intensificam operações globais, transformando África e Ásia em centros estratégicos para o narcotráfico internacional. Novas alianças com cartéis e máfias europeias e africanas indicam uma sofisticada rede de logística e lavagem de dinheiro, explorando fragilidades institucionais.
A consolidação de parcerias internacionais por facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), tem se intensificado para além das rotas já conhecidas. Após estabelecerem acordos com cartéis latino-americanos e máfias europeias, o foco agora se volta para a África e Ásia, que se tornam hubs cruciais para a redistribuição global de cocaína.
Investigações da Polícia Federal e da Receita Federal, em colaboração com a Interpol, e estudos como o “Floresta em Pó” revelam a formação de verdadeiros consórcios criminais transnacionais. Essas organizações movimentam grandes volumes de drogas, operam complexos esquemas de lavagem de dinheiro e exploram as vulnerabilidades de diversos países.
Essa nova dinâmica representa um desafio significativo para a segurança pública e a cooperação internacional no combate ao crime organizado. A expansão para novos continentes demonstra a capacidade de adaptação e a crescente sofisticação das redes criminosas brasileiras no cenário global. Conforme dados analisados no estudo “Floresta em Pó”, publicado em outubro de 2025, a África se consolidou como um importante centro de redistribuição de cocaína desde 2020.
Golfo da Guiné: Corredor Estratégico para o Narcotráfico Africano
O Golfo da Guiné emergiu como um corredor fundamental para o narcotráfico no continente africano. Portos na Nigéria, Gana e Costa do Marfim foram integrados a sofisticadas redes logísticas, muitas delas controladas pelo PCC em parceria com organizações nigerianas e cartéis colombianos.
Nesse circuito, portos brasileiros como Santos, Paranaguá e Suape desempenham um papel central no escoamento de cocaína, frequentemente oculta em cargas de frutas, café e carnes congeladas. Essa conexão transatlântica também se estende ao Atlântico Central, envolvendo Cabo Verde, Senegal e Guiné-Bissau.
Guiné-Bissau, descrita como um “narcoestado” por relatórios da ONU, tornou-se um ponto de armazenamento e transbordo para a Europa. Portos como Praia e Dakar recebem cargas de estados nordestinos brasileiros, evidenciando a importância crescente dessa região para a rota.
Novas Rotas e Plataformas na África e Mediterrâneo
Países como Moçambique, África do Sul e Namíbia ganham relevância como intermediários no tráfico internacional. O porto de Durban, na África do Sul, funciona como uma plataforma de distribuição para Europa, Oriente Médio e Ásia.
Investigações da Polícia Federal revelaram esquemas de envio de cocaína a partir de Santos, camuflada em contêineres de café, demonstrando a integração entre redes brasileiras e operadores africanos. O norte da África, incluindo Marrocos, Argélia e Tunísia, também se integra a essas rotas.
Portos como Casablanca e Argel atuam como plataformas de redistribuição para o Mediterrâneo, conectando redes brasileiras a máfias europeias, como a ‘Ndrangheta italiana. A África, portanto, deixou de ser um mero ponto de passagem para se tornar um centro logístico vital na rede global do narcotrâfico.
Expansão para Ásia e Desafios Transnacionais
A análise integrada dessas rotas aponta para a diversificação dos destinos finais, com expansão para mercados no Oriente Médio, como Dubai, e na Ásia, através de Singapura e Índia, utilizando plataformas africanas consolidadas. Essa tendência é uma preocupação central para a segurança pública, segundo o advogado criminalista Jorge Talarico Junior.
A crescente utilização de rotas africanas como corredor estratégico para o envio de cocaína da América do Sul à Europa evidencia a vulnerabilidade dos controles de fronteira e aduaneiro. Isso reforça a necessidade de compromisso internacional e políticas públicas integradas para combater o crime organizado transnacional.
O surgimento de redes criminais articuladas entre sul-americanos, africanos e europeus desafia a capacidade isolada de qualquer nação. A natureza transnacional dessas operações exige não apenas ações repressivas, mas também alinhamento político-institucional, harmonização legislativa e mecanismos de responsabilização eficazes contra essas estruturas adaptáveis.















