Nova Rota do Ouro na Amazônia: Roraima se Torna Eixo de Contrabando Internacional
A Polícia Federal (PF) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) identificaram uma alteração significativa nas rotas de contrabando de ouro no Brasil. O estado de Roraima emergiu como um novo e crucial eixo de saída do metal precioso extraído ilegalmente, com destino a mercados internacionais. Essa mudança nas estratégias criminosas tem se refletido em um aumento expressivo nas apreensões realizadas em Boa Vista e nas estradas estaduais.
Por décadas, o fluxo do ouro ilegal partia, em grande parte, da Terra Indígena Yanomami, sendo transportado para outros estados brasileiros com documentação falsa para, então, ser exportado. No entanto, conforme aponta a PF, o panorama mudou, e Roraima agora funciona como um ponto de passagem direto para outros países, configurando uma nova e preocupante rota do ouro clandestino.
Essa nova dinâmica do crime organizado foi evidenciada por diversas operações e apreensões, que demonstram a complexidade e a escala do esquema. A mudança nas rotas e a intensificação da repressão em outras áreas impulsionaram o estado a se tornar um elo vital na cadeia do ouro ilegal, conectando a exploração predatória na Amazônia a consumidores globais. As informações sobre essa nova rota foram divulgadas pela PF e PRF.
Apreensão Emblemática de 51kg de Ouro Ilustra a Nova Rota
Um dos episódios mais marcantes dessa nova rota ocorreu em 2 de dezembro do ano passado. A PF e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) monitoravam uma aeronave que deveria pousar em uma pista privada na Fazenda Timbó, próxima a Boa Vista. Contudo, a aeronave alterou seu plano de voo e desembarcou no Aeroporto Internacional de Boa Vista, levantando suspeitas.
Ao abordarem a aeronave, os agentes encontraram 51 quilos de barras de ouro sem qualquer documentação que comprovasse sua origem legal ou procedência. O valor estimado da carga era de R$ 37 milhões. Os ocupantes da aeronave confessaram que o ouro foi embarcado em Itaituba, no Pará, um conhecido entreposto de ouro extraído de terras indígenas.
Aumento de 368% nas Apreensões em Roraima Expõe o Fluxo Ilegal
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) corroboram a mudança de rota e o aumento do contrabando. Entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas estradas de Roraima disparou, registrando um crescimento de impressionantes 368%. Essa estatística alarmante reforça a tese de que o estado se tornou um ponto estratégico para o escoamento do metal precioso.
As investigações da PF indicam que uma parte considerável do ouro extraído ilegalmente da Terra Yanomami, que abriga cerca de 33 mil indígenas, não apenas abastece o mercado interno, mas também é direcionada para exportação. Há registros de que esse ouro ilegal tem chegado a países da Europa, Ásia e Estados Unidos, evidenciando o alcance global dessa atividade criminosa.
O “Esquentamento” do Ouro e a Documentação Fraudulenta
Para inserir o ouro ilegal no mercado formal, o metal passa por um processo conhecido como “esquentamento”, que envolve a emissão de notas fiscais fraudulentas. Segundo a PF e a PRF, o ouro extraído em Roraima é frequentemente enviado para outros estados, onde organizações criminosas especializadas em lavagem de dinheiro utilizam estruturas burocráticas e logísticas para legalizar o metal.
Documentos falsos são criados para vincular o ouro extraído ilegalmente em terras indígenas a permissões de lavra legítimas de outras regiões. Após essa falsificação documental, o ouro se torna apto para comercialização no Brasil ou para exportação. O delegado da PF, Caio Luchini, explicou que, em anos anteriores, operações já identificavam o envio de ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, onde ocorria o “esquentamento” por meio de documentação fraudulenta.
Fatores que Impulsionam a Nova Rota e a Intensificação da Fiscalização
A mudança na rota do ouro clandestino e o novo papel de Roraima como porta de saída do país têm sido notados por investigadores e especialistas nos últimos dois anos. O diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida, mencionou apreensões de ouro vindas do Amazonas e de Rondônia, além do Pará, estados com forte presença de garimpos ilegais.
A delegada Milena Coutinho, chefe do Setor de Repressão a Crimes contra os Recursos Minerais e de Poluição da PF, ressalta que ainda não há indícios concretos de atuação de facções criminosas como o Comando Vermelho ou o PCC nessa nova rota, mas as investigações continuam. Três fatores principais explicam essa alteração no fluxo do ouro clandestino.
O primeiro é a intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, que, embora tenha reduzido a extração ilegal na região, impulsionou a busca por novas rotas de escoamento. O segundo fator envolve medidas que dificultaram o “esquentamento” do ouro, como a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica na compra de ouro de garimpo e o fim da presunção de boa-fé nesse comércio.
A fiscalização se intensificou significativamente em 2023, especialmente após a crise humanitária na Terra Yanomami, atribuída ao avanço do garimpo ilegal. O governo federal implementou a Casa de Governo em Boa Vista para combater o garimpo e ampliar a assistência aos indígenas. Desde então, as operações de PF, Força Nacional e Ibama foram ampliadas. Como resultado, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam uma queda de 31% nas exportações brasileiras de ouro, de 96 toneladas em 2022 para 66 toneladas em 2025, após o cerco às estruturas de lavagem do ouro ilegal.















