Ituporanga, SC, vive paradoxo: colheita recorde de cebola esbarra em preços que não cobrem custos, gerando endividamento entre produtores.
A safra de cebola 2025/2026 em Ituporanga, Santa Catarina, o maior produtor nacional, é marcada por uma colheita robusta, com projeção de 168 mil toneladas. No entanto, o cenário nas propriedades rurais é de apreensão e crise financeira, com a alta produtividade não se convertendo em lucro.
A principal causa da crise é a gritante disparidade entre os custos de produção e o valor pago pelo mercado. O quilo da cebola é comercializado entre R$ 1 e R$ 1,20, um patamar que, segundo representantes do setor, sequer cobre as despesas básicas da atividade. Essa situação, conforme informações divulgadas, tem levado agricultores a acumular prejuízos e aumentar o endividamento.
A dependência do dólar para a compra de insumos, como fertilizantes e defensivos, agrava o quadro, uma vez que esses produtos têm seus preços atrelados à moeda estrangeira, enquanto a cebola é vendida a preços baixos no mercado interno. A pesquisa e a inovação, no entanto, buscam saídas para a sustentabilidade da cebolicultura catarinense.
Produtividade Alta, Remuneração Baixa: O Dilema do Agricultor
A situação em Ituporanga é emblemática. Enquanto o município, com aproximadamente 4.900 hectares cultivados, espera uma produtividade média de 35 toneladas por hectare, considerada alta, o valor da venda mal cobre os gastos. O agricultor Jelson Gesser, com 12 hectares, relata que o preço de venda fica entre R$ 0,40 e R$ 0,50 abaixo do custo por quilo. Ele compara: “Estamos vendendo cebola ao mesmo preço de 20 anos atrás, mas com um custo de produção infinitamente maior”.
O custo com manejo fitossanitário para combater doenças fúngicas é apontado como o maior componente das despesas. A dependência da cotação do dólar para a aquisição de insumos, como fertilizantes e defensivos, encarece ainda mais a produção. Essa realidade contrasta com o valor baixo recebido pelo produto final no mercado interno, gerando um ciclo de prejuízos.
Santa Catarina Busca Recorde em Produção, Mas Preços Pressionam
A nível estadual, Santa Catarina projeta uma safra recorde de 597 mil toneladas de cebola, cultivadas em 19.568 hectares. Contudo, a expectativa de uma oferta elevada, tanto no estado quanto em regiões vizinhas, mantém os preços sob pressão e diminui o poder de negociação dos produtores. Na safra 2024/2025, o valor total da produção no estado já havia sofrido uma queda drástica, de R$ 938 milhões para R$ 647 milhões.
Essa queda expressiva no valor total reflete a dificuldade dos produtores em repassar os custos de produção. A abundância de oferta, embora positiva em termos de volume, acaba por saturar o mercado e forçar os preços para baixo, prejudicando a rentabilidade das lavouras.
Pesquisa e Inovação: Ferramentas para a Sobrevivência da Cebolicultura
Em resposta a essas dificuldades, a pesquisa agropecuária tem sido um pilar fundamental para a competitividade da cebolicultura catarinense. A Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) trabalha desde 1984 no melhoramento genético da cultura, com foco na estação experimental de Ituporanga.
O pesquisador Gerson Henrique Wamser destaca que o objetivo é desenvolver materiais mais produtivos, resistentes e com maior estabilidade. Um exemplo é a cultivar SCS373 Valessul, que se sobressai pela alta produtividade, casca marrom e, crucialmente, pela capacidade superior de armazenamento. Essa característica permite que os produtores escalonem as vendas, reduzindo a pressão de comercialização logo após a colheita.
Assistência Técnica e Zoneamento Agrícola: Suporte para o Produtor
Além da pesquisa, a Epagri oferece assistência técnica e extensão rural, auxiliando os produtores no acesso a crédito e na gestão das propriedades. O Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Cepa) fornece dados essenciais sobre preços e custos, apoiando a tomada de decisão.
Um avanço recente foi a inclusão da cebola no Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), em fevereiro de 2024. O zoneamento define as épocas de plantio mais seguras por município, sendo obrigatório para acesso a políticas públicas como o Proagro e o Seguro Rural. “A Epagri tem garantido a adaptação agronômica da cebola catarinense, mas sem solução para a disparidade entre custo e preço, a sustentabilidade da atividade permanece sob grave ameaça”, avalia Wamser.
Inovação Tecnológica Combate a Escassez de Mão de Obra e Custos
A mecanização surge como alternativa estratégica diante do aumento dos custos e da dificuldade em encontrar mão de obra. Uma empresa de Ituporanga desenvolveu a primeira colhedora de cebola autopropelida do Brasil. A inovação visa reduzir a dependência de trabalho manual, um dos componentes mais caros da produção.
Sidnei Justen, proprietário da SJ Máquinas, explica que a máquina foi desenvolvida para suprir a falta de trabalhadores e baixar o custo para o agricultor. O equipamento conta com motorização hidráulica e sistema de movimentação bidirecional, garantindo precisão no corte em diferentes tipos de solo.















