Produção de vieiras em Santa Catarina encolhe e preço do molusco dispara
Santa Catarina, líder nacional na produção de moluscos, vê sua espécie mais valiosa, a vieira, em declínio acentuado. Mesmo com preços que chegam a R$ 120 a dúzia para o produtor, o cultivo enfrenta uma série de obstáculos que têm levado ao desaparecimento gradual do molusco dos mares catarinenses.
A alta mortalidade das sementes, as rigorosas exigências ambientais e a crescente concorrência por espaço marinho com o cultivo de macroalgas, que é mais simples e rentável, são os principais vilões dessa história. Conforme apurado pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo, a situação exige atenção e mudanças urgentes para reverter o quadro.
Os desafios vão desde a qualidade da água, essencial para a sobrevivência das vieiras, até a complexidade do manejo, que demanda tempo e recursos. A migração de produtores para o cultivo de algas, mais promissor financeiramente, agrava ainda mais a crise na vieiricultura.
Principais Fatores da Mortalidade das Vieiras
A sobrevivência da vieira está intrinsecamente ligada à **qualidade da água**, com destaque para a **salinidade**. Chuvas prolongadas podem diminuir drasticamente o nível de sal, causando a morte de cultivos inteiros. O ideal seria a alta salinidade oceânica, mas muitas áreas demarcadas em Santa Catarina localizam-se em baías, onde a água é naturalmente mais doce.
Além da salinidade, o **acúmulo de organismos incrustantes**, como cracas e algas, nas estruturas de criação dificulta o manejo. Esse acúmulo não só encarece o processo, mas também estressa os animais, impedindo que atinjam o tamanho comercial após um ciclo de **dezoito meses** de trabalho árduo.
O Complexo Processo de Cultivo da Vieira
O cultivo da vieira é um trabalho **manual e exaustivo**, que se estende por cerca de um ano e meio. Tudo começa com a pré-semente, ainda sem concha, que necessita de limpeza a cada dez dias no mar. À medida que crescem, as vieiras são transferidas para estruturas chamadas lanternas, compostas por redes sobrepostas.
A cada quarenta e cinco dias, os produtores precisam **retirar as redes da água** para medir e separar os animais por tamanho. Ao final do ciclo produtivo, a taxa de sobrevivência é alarmante: apenas **10% a 15%** das sementes iniciais chegam à colheita. Essa perda é significativamente maior quando comparada à criação de ostras, onde a mortalidade gira em torno de 30%.
Macroalgas: A Alternativa Que Ganha Espaço
A produção de algas marinhas emergiu como uma alternativa **muito mais atraente** para os maricultores. O cultivo de macroalgas é mais simples e oferece um retorno financeiro rápido, diferentemente da vieira, que exige manejo constante e apresenta alto risco de perda total. As algas crescem aceleradamente e demandam menos trabalho.
Isso criou um efeito em cadeia no litoral catarinense. Produtores que antes dividiam suas fazendas marinhas entre moluscos e algas estão **abandonando as vieiras** para expandir o espaço dedicado às algas. Na prática, a alga venceu a disputa pela atenção e pelo tempo dos maricultores por ser um negócio mais fácil de gerir.
O Caminho Para a Recuperação da Vieira em SC
Especialistas apontam que o futuro da vieira em Santa Catarina depende de **mudanças na política de uso do mar** e de uma maior **profissionalização do setor**. É fundamental a demarcação de novas áreas de cultivo em regiões com águas mais profundas e salinas, como em Bombinhas, afastando-se das baías que prejudicam a espécie.
Além disso, o setor necessita de **investimentos empresariais** para tecnificar a produção e garantir um fornecimento estável de sementes, que hoje está concentrado nas universidades. Se houver esse salto tecnológico, a vieira tem potencial para se tornar um pilar de alta rentabilidade na **economia azul brasileira**.





















