Itajaí avança para se consolidar como principal porto de embarque de cruzeiros no Brasil com novo terminal.
A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) estabeleceu como exigência contratual a construção de um terminal de passageiros de cruzeiros no Porto de Itajaí, em Santa Catarina. A medida faz parte da proposta de arrendamento definitivo do porto, que está em consulta pública e prevê um contrato de 25 anos com investimentos estimados em cerca de R$ 2,6 bilhões.
O novo terminal, avaliado em R$ 300 milhões, deverá ser entregue pela futura concessionária até o sexto ano de operação. O Instituto Mais Itajaí, composto por mais de 60 empresas locais, investiu R$ 1 milhão no desenvolvimento de um estudo para o projeto, contratando a multinacional WSP, especializada em projetos portuários. Giovani Sandri, coordenador do grupo de trabalho do terminal no instituto, destacou a iniciativa: “Entendemos que não devemos ficar apenas no discurso de pedir ou requerer as coisas ao governo. Podemos fazer algo a mais”.
O estudo considerou cartas náuticas, manobrabilidade e o impacto sobre o tráfego de navios, resultando na escolha da área do Centro Comercial Portuário, ao lado do Centro de Eventos. Essa localização já é utilizada pela cidade para receber cruzeiros em uma estrutura provisória. Conforme informações divulgadas, o projeto do terminal prevê três pisos, aproximadamente 30 mil metros quadrados de área construída e 424 metros de cais contínuo, dimensionado para receber os maiores navios do mundo, da classe Oasis. Mesmo após o leilão e a assinatura do contrato, Sandri estima que ainda serão necessários de três a seis anos para estudos finais e licenciamento antes que a obra entre em operação.
Demanda crescente justifica investimento milionário em Itajaí
Itajaí já demonstra uma forte demanda por operações de cruzeiros, mesmo sem uma estrutura definitiva. Na temporada 2025/2026, a cidade recebeu 37 escalas de cinco navios, movimentando mais de 169 mil passageiros entre novembro e abril. Desse total, 33 escalas envolveram embarque e desembarque, representando 89,1% da movimentação da temporada, com cerca de 30 mil embarques e 32 mil desembarques.
“Somos o segundo porto do Brasil que mais movimenta passageiros, atrás apenas de Santos e à frente do Rio de Janeiro”, ressalta Sandri. A Antaq também posiciona Itajaí como o terceiro maior porto de cruzeiros da América Latina, atrás de Santos e Buenos Aires. O impacto econômico da atividade na última temporada foi estimado em R$ 48,7 milhões, com projeções que variam de R$ 40,9 milhões a R$ 56,5 milhões, considerando os gastos médios por passageiro.
Sandri acredita que a construção do terminal permanente impulsionará ainda mais esses números. “Existem estudos que calculam o quanto cada passageiro deixa em uma cidade. O impacto é significativo, em termos de dólar, geralmente entre US$ 80 e US$ 120 por pessoa. Se tivemos aproximadamente 160 mil passageiros circulando em Itajaí na última temporada, mais de R$ 100 milhões podem ter ficado na cidade ou movimentado a economia”, pondera.
Terminal de Itajaí pode impulsionar turismo regional e complementar destinos vizinhos
O novo terminal em Itajaí tem o potencial de transformar a região em um polo de embarque e desembarque de cruzeiros, beneficiando também cidades vizinhas como Balneário Camboriú e Porto Belo. Atualmente, esses municípios recebem escalas de cruzeiros, mas não funcionam como portos de embarque, com passageiros desembarcando apenas para passeios de algumas horas.
Marcos Arnhold Júnior, pesquisador em políticas públicas do turismo da Univali, explica que o terminal de Itajaí pode preencher essa lacuna, funcionando como um elo para destravar um fluxo turístico maior. “Itajaí pode fortalecer sua função de embarque e desembarque. Balneário Camboriú pode complementar a experiência do turista com hotelaria, gastronomia e seus atrativos. Porto Belo pode ser promovido como um destino mais focado em suas belezas naturais”, detalha o professor.
Ludiane Goulart, diretora executiva do BC Convention, vê ganhos na visibilidade internacional para os destinos vizinhos. “Quanto maior for o incentivo para que o visitante transforme sua passagem pelo cruzeiro em uma experiência completa no destino, maior será o impacto positivo para a hotelaria, o comércio, os atrativos turísticos e toda a economia local”, afirma.
Mobilidade e hotelaria: os principais desafios para a operação de cruzeiros
A localização estratégica de Itajaí, próxima à BR-101 e ao Aeroporto Internacional de Navegantes, é um grande diferencial. No entanto, a mobilidade urbana e a capacidade hoteleira da região são pontos que precisam de atenção para suportar o aumento do fluxo de cruzeiristas.
Arnhold Júnior aponta que o trânsito na região já é bastante movimentado, o que pode causar atrasos. A Secretaria de Turismo de Itajaí trabalha em um plano operacional para otimizar o fluxo de passageiros dentro do porto, com vias distintas para embarque e desembarque, visando atender cerca de 480 passageiros por hora no embarque. A integração entre aeroporto, porto, transportes terrestres e hotelaria é vista como essencial.
Apesar da forte rede hoteleira em Balneário Camboriú, a diretora executiva do BC Convention reconhece a pressão sazonal em períodos de alta ocupação, como o Réveillon e o pico da temporada de verão. O cruzamento de calendários entre a alta temporada de cruzeiros (dezembro e janeiro) e a alta estação de praia na região representa um desafio significativo.
O futuro do terminal de Itajaí depende agora da análise das contribuições da consulta pública pela Antaq, seguida pela apreciação do Tribunal de Contas da União. O leilão do projeto está previsto para o primeiro semestre de 2027.











