A necessidade de “estocar” vento e sol, que um dia foi motivo de piada nacional, transforma-se hoje em realidade tecnológica e estratégica para o Brasil. A crescente dependência de fontes renováveis intermitentes como a solar e a eólica exige soluções de armazenamento para garantir a estabilidade da rede elétrica.
Especialistas alertam para um possível colapso no Sistema Interligado Nacional (SIN) caso medidas de compensação, como o uso de baterias de grande porte, não sejam implementadas rapidamente. A tecnologia BESS (Battery Energy Storage System) já é amplamente utilizada globalmente e ganha força no país.
Nesse cenário, a brasileira WEG deu um passo importante ao anunciar a construção de uma fábrica dedicada à produção de sistemas BESS em Itajaí, Santa Catarina. Este investimento estratégico, com financiamento do BNDES, alinha-se ao objetivo de posicionar o Brasil na vanguarda da transição energética global, conforme divulgado pela própria empresa.
Fábrica de Megabaterias em Itajaí: Capacidade e Inovação
A nova unidade da WEG em Itajaí será a segunda do grupo focada em BESS, com a promessa de ampliar significativamente a capacidade produtiva para até 2 GWh anuais. Essa capacidade é suficiente para abastecer cerca de 400 mil residências por um dia inteiro, utilizando exclusivamente a energia armazenada.
O investimento de R$ 280 milhões na planta, que contará com alto nível de automação e robótica, prevê a geração de 90 novos empregos diretos. Além da produção, o complexo abrigará um laboratório de ponta para testes, desenvolvimento e qualificação de produtos, garantindo aprimoramento contínuo e controle de qualidade.
Leilão de Baterias e o Futuro da Rede Elétrica Brasileira
O anúncio da fábrica coincide com a expectativa do Ministério de Minas e Energia de realizar o primeiro leilão de baterias de armazenamento do Brasil até junho deste ano. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), Markus Vlasits, este leilão é crucial para ampliar a capacidade de armazenamento do país, que hoje gira em torno de 1 GWh, e para evitar apagões.
O Brasil está atrasado em relação a outros países, como China e Estados Unidos, que já possuem capacidades instaladas expressivas em sistemas de armazenamento. A Absae estima que o leilão brasileiro possa atrair até R$ 10 bilhões em projetos, com potencial de oferta de mais de 20 GW em projetos, dez vezes o que o governo espera contratar inicialmente (2 GW).
A Importância do Armazenamento para Fontes Renováveis
A necessidade de sistemas BESS se intensifica com o aumento da participação de fontes como a solar e a eólica na matriz energética brasileira. O principal desafio é o descompasso temporal entre a geração e o consumo.
Enquanto a energia eólica atinge picos de geração durante a madrugada, com baixa demanda, a energia solar cessa sua produção justamente antes do horário de pico de consumo, entre 18h e 21h. Sem o armazenamento, o excedente de energia limpa corre o risco de ser desperdiçado.
Os sistemas de armazenamento em baterias surgem como a solução vital para capturar essa energia excedente e liberá-la quando a demanda é alta. Isso reduz a dependência de fontes mais caras e poluentes, como as termelétricas, garantindo a confiabilidade e a segurança do fornecimento de energia elétrica em todo o país.
Avanço Tecnológico e Perspectivas Globais
O investimento da WEG e o futuro leilão de baterias são sinais claros do compromisso do Brasil com a transição energética. A tecnologia BESS, embora ainda em desenvolvimento no país, já movimenta bilhões globalmente, com projeções de mais de R$ 80 bilhões em investimentos até 2034.
Apesar de possíveis adiamentos no leilão devido a questões regulatórias, como a incorporação das mudanças da reforma do setor elétrico pela Aneel, a urgência em integrar sistemas de armazenamento ao SIN é um fator que impulsiona a viabilização desses projetos. A busca por parcerias internacionais, como a visitada pelo ministro de Minas e Energia na China, reforça a estratégia nacional.














