Infiltração de facções corrói o Estado brasileiro por dentro, ameaçando a soberania com conexões em gabinetes e polícias, expondo um cenário alarmante para a ordem pública.
A imagem de criminosos armados em comunidades já não define a totalidade da ameaça do crime organizado no Brasil. Uma realidade mais insidiosa e igualmente perigosa se manifesta pela infiltração de facções criminosas em gabinetes, órgãos policiais e folhas de pagamento do Estado.
Esse avanço sistêmico, protagonizado por grupos como o PCC e o Comando Vermelho, transcende o controle territorial, representando uma ameaça direta à soberania das instituições brasileiras. A influência se estende por esferas de poder, minando a confiança e a capacidade do Estado em garantir a segurança e a justiça.
Casos recentes em São Paulo e no Rio de Janeiro ilustram a profundidade dessa infiltração. Enquanto o PCC foca em corrupção policial e financeira em São Paulo, o Comando Vermelho consolida sua influência política no Rio, atingindo o coração do poder legislativo estadual. Conforme informações divulgadas pelo G1, investigações apontam para o envolvimento de policiais com facções criminosas.
PCC: Corrupção Policial e Assassinato de Delator em São Paulo
Um dos episódios mais chocantes ocorreu em 8 de novembro de 2024, com a execução de Antenor Vinicius Lopes Gritzbach, conhecido como o “delator do PCC”, no Aeroporto de Guarulhos. Gritzbach possuía informações cruciais sobre as conexões financeiras do PCC com a polícia paulista, incluindo detalhes sobre policiais que recebiam propina.
Sua delação premiada apresentou provas robustas contra investigadores e delegados de departamentos importantes como o DHPP e o Deic. Segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), policiais civis teriam atuado como “braços operacionais” da facção, recebendo propinas milionárias, de até R$ 40 milhões, para desviar investigações que atingiam a cúpula do PCC.
A execução de Gritzbach, sob a “proteção” de policiais militares em sua escolta particular ilegal, escancarou o envolvimento de ao menos 27 policiais de São Paulo com o PCC e o CV, segundo levantamento do G1. Atualmente, 33 pessoas estão presas, incluindo 26 policiais, por crimes como homicídio e corrupção. Quatro estão foragidas e outras quatro, incluindo um policial, respondem em liberdade.
Comando Vermelho: Influência Política e Conexões no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, a investigação em torno do ex-deputado estadual Thiago Motta de Souza, o “TH Joias”, revela a influência do Comando Vermelho em estruturas políticas. Preso por lavagem de dinheiro e acusado de intermediar a compra de armas para a facção, “TH Joias” teve sua transferência para o sistema carcerário federal determinada pelo STF.
Na mesma ação, foi preso o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, e o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, foi alvo de investigação. A Polícia Federal encontrou indícios de que Bacellar foi avisado antecipadamente sobre a operação que prenderia “TH Joias”, auxiliando-o a ocultar provas.
O celular de Bacellar apontou o desembargador Macário Júdice como possível fonte do vazamento. A transferência de “TH Joias” para presídios federais atende a pedidos da PF e da Procuradoria-Geral da República, que destacam a contradição em não incluí-lo em regime diferenciado, sendo ele considerado “um dos líderes do grupo e parte integrante de seu núcleo político”.
Infiltração Eleitoral e Erosão Institucional
Em 2024, investigações do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) indicaram que ao menos 70 candidatos a cargos municipais no estado possuíam ligações com facções criminosas. O MP-SP apura esses casos sob sigilo, evidenciando a busca por capilaridade política.
Celeste Leite dos Santos, promotora do MP-SP, afirma à Gazeta do Povo que “existem indícios de possível infiltração de agentes públicos em esquemas articulados pelo crime organizado e facções”. Ela ressalta que a cooptação de policiais civis e militares fragiliza a credibilidade das instituições responsáveis pela ordem pública.
A promotora alerta que esse cenário, alarmante em São Paulo, encontra paralelo no Rio de Janeiro, com indícios de atuação do Comando Vermelho em estruturas políticas e judiciais. A infiltração das facções, se comprovada, representa uma “erosão silenciosa e estratégica das esferas decisórias do Estado”, impactando diretamente a formulação e execução de políticas públicas essenciais.
Desafio para a Garantia da Ordem Pública
A atuação das facções criminosas, ao infiltrar-se em diversos níveis do Estado, representa um desafio sem precedentes para a garantia da ordem pública. A cooptação de agentes públicos, seja por meio de propinas ou influência política, compromete a capacidade do Estado de combater o crime de forma eficaz.
A complexidade dessa infiltração exige investigações aprofundadas e ações coordenadas entre diferentes órgãos de segurança e justiça. A sociedade brasileira aguarda respostas concretas para reverter essa tendência alarmante e restaurar a confiança nas instituições.














