O Pinheirão de São Joaquim e a saga das araucárias gigantes
No alto da serra catarinense, a família Souza protege um verdadeiro monumento natural: o “Pinheirão” de São Joaquim, a maior araucária conhecida no Brasil. Com impressionantes 39,2 metros de altura e um tronco de 3,25 metros de diâmetro, essa árvore centenária é guardiã de uma história que remonta a 140 anos, quando a família passou a cuidar dela.
Antônio Luciano de Souza, proprietário da fazenda, conta que seu avô a chamava de “gigante da natureza” e “araucaria da sorte”, pois sua imensidão impedia que as antigas serras dos homens a derrubassem. Essa descrição se alinha com o que pesquisadores registraram anos depois, atestando sua grandiosidade.
A visitação ao Pinheirão começou em 2012, impulsionada pelo desejo de Souza de compartilhar o espetáculo e promover a conscientização ambiental. Para ele, receber turistas é uma forma de educar sobre a importância da preservação das araucárias, incentivando futuras gerações a cuidarem desse patrimônio natural.
O que define uma araucária gigante?
Em 2019, um levantamento pioneiro de Marcelo Scipioni, pesquisador da Universidade de Santa Catarina (UFSC), e sua equipe definiu o conceito de “árvores gigantes” da espécie Araucaria angustifolia. São exemplares com troncos de diâmetro à altura do peito (DAP) superior a 1,5 metro e alturas que ultrapassam os 30 metros.
A pesquisa percorreu mais de 6,8 mil quilômetros pelo Sul do Brasil, medindo 3.529 araucárias. O resultado surpreendeu: apenas 21 árvores se enquadraram na categoria de gigantes, distribuídas em fazendas, parques e reservas. O Pinheirão de São Joaquim liderou essa lista, seguido pelo Pinheiro Grosso em Canela (RS) e uma antiga araucária em Cruz Machado (PR), que infelizmente tombou anos depois.
Atualmente, a plataforma mantida pela equipe de Scipioni atualiza esse ranking, indicando pouco mais de 40 araucárias gigantes vivas no Sul do país. Essas árvores monumentais, com diâmetro acima de 1,5 metro, estão espalhadas por cidades como São Joaquim (SC), Canela (RS), Urupema (SC) e Guarapuava (PR).
As quedas que acenderam o alerta: o que está derrubando as gigantes?
Nos últimos anos, a preocupação com a fragilidade dessas árvores se tornou realidade. Em 2023, a emblemática “Araucária Gigante” de Cruz Machado (PR) tombou, um evento que motivou a Embrapa Florestas a produzir mudas clonadas a partir de seu material genético.
Em Caçador (SC), na estação experimental da Embrapa, outra grande araucária caiu, reforçando a vulnerabilidade mesmo em áreas monitoradas. O caso mais alarmante ocorreu em Fraiburgo (SC), onde quatro araucárias monumentais desmoronaram em um curto período, levantando sérias questões de segurança pública.
Uma investigação forense conduzida pelo engenheiro florestal Scipioni apontou que o vento, apesar de forte, não foi o principal causador das quedas. A análise detalhada de árvores caídas e uma sobrevivente no Parque René Frey revelou um fator mais sutil, mas devastador: a saturação do solo.
Solo encharcado e El Niño: a nova ameaça às araucárias
O estudo, publicado na revista Agricultural and Forest Meteorology, demonstrou que solos argilosos, naturalmente propensos a reter água, perdem sua coesão sob chuvas prolongadas. Em condições normais, o solo suporta o peso das árvores, mas com a saturação, torna-se como “tentar segurar uma árvore em cima de lama”, explica Scipioni.
O fenômeno El Niño agrava essa situação, intensificando as chuvas e mantendo o solo encharcado por mais tempo. Em 2023, por exemplo, a região de Fraiburgo registrou mais de 400 milímetros de chuva em poucas semanas, um volume que sobrecarregou solos já fragilizados.
Essa nova realidade exige uma mudança de perspectiva sobre os anos de El Niño, especialmente em áreas com araucárias monumentais. A combinação de solos argilosos e chuvas contínuas cria um cenário de risco que precisa ser antecipado e gerenciado.
Prevenção e manejo: como proteger as últimas gigantes?
A boa notícia, segundo Scipioni, é que parte desse risco pode ser mitigada com ações de manejo. O monitoramento contínuo da umidade do solo em torno das araucárias gigantes, especialmente em locais de sopé e solos argilosos, é fundamental.
Em anos de El Niño, a ativação de planos de emergência, como restrição de acesso em dias de maior risco e avaliação de drenagem, pode prevenir desastres. A melhoria da drenagem em parques e áreas de visitação, com a criação de canais de escoamento e manejo de encostas, também se torna crucial.
Além disso, o uso de técnicas não destrutivas, como tomografia sônica de tronco, pode avaliar a saúde estrutural das árvores, especialmente aquelas com cavidades. Assim como monitoramos pontes e prédios, é essencial aplicar a mesma lógica a esses monumentos naturais.
Apesar dos esforços científicos, a falta de inventários detalhados em todos os estados e a dependência de propriedades privadas para adoção de protocolos de monitoramento representam desafios. “Sem saber onde estão as árvores e sem uma rede mínima de monitoramento, ficamos reféns da sorte e da estatística”, lamenta Scipioni.
Para Antônio Luciano de Souza, o Pinheirão é um legado a ser honrado e preservado, um desejo de que as futuras gerações continuem amando e cuidando da natureza. Do ponto de vista científico, Scipioni reforça que essas árvores são um “laboratório vivo, patrimônio ecológico e memória cultural”. Perdê-las significa perder dados, história e um símbolo de um Brasil que um dia foi muito mais verde.





















