O Sino da Paz: Um Legado de Sobrevivência e Reconciliação em Frei Rogério
O pequeno município de Frei Rogério, localizado no meio-oeste de Santa Catarina, abriga um objeto de valor histórico e emocional incomensurável: um sino de bronze com mais de 400 anos, que sobreviveu à tragédia nuclear de Nagasaki, no Japão. Este artefato, conhecido como o Sino da Paz, carrega consigo uma história de dor, resiliência e esperança, conectando duas culturas separadas por oceanos.
Originalmente parte de um templo budista, o sino foi encontrado entre os escombros após a explosão atômica de 9 de agosto de 1945. Preservado no templo Daionji, ele atravessou o mundo para se tornar um poderoso símbolo de memória e reconciliação em solo catarinense, conforme informações divulgadas pela família Ogawa, descendente de sobreviventes da bomba.
Um Pedido de Paz Cruzando o Pacífico
A jornada do Sino da Paz até o Brasil iniciou-se com um pedido singular. Kazumi Ogawa, tio de Naoki Ogawa e filho de sobreviventes do ataque nuclear, solicitou às autoridades de Nagasaki uma peça que pudesse simbolizar a homenagem às vítimas da bomba. O objetivo era honrar tanto os que pereceram quanto os que continuaram a sofrer as sequelas da radiação.
A solicitação foi feita durante um encontro da associação da província de Nagasaki, realizado em São Paulo, há cerca de três décadas. Um amigo de Kazumi intermediou o pedido. O governo japonês, que já havia enviado um sino semelhante para a Organização das Nações Unidas (ONU), destinou outro para Frei Rogério, enquanto um terceiro permaneceu em Nagasaki.
“Como ele sobreviveu à bomba e foi encontrado nos escombros, passou a ser chamado de Sino da Paz”, explica Naoki Ogawa, cujo pai, Wataru Ogawa, de 96 anos, é um hibakusha, termo para sobreviventes das bombas atômicas.
Histórias de Sobrevivência na Família Ogawa
A história da família Ogawa é intrinsecamente ligada à tragédia nuclear. Wataru Ogawa, pai de Naoki, tinha 16 anos em 1945 e servia na Escola da Marinha, próximo a Hiroshima. Duas semanas após a explosão, ele entrou em Nagasaki e foi exposto à radiação.
“Ele perdeu o cabelo na época, tem uma mancha antiga no pulmão, mesmo sem nunca ter fumado, e sofre dores na coluna e nas pernas desde jovem”, relata Naoki. Apesar das sequelas, Wataru mantém lucidez, utilizando cadeira de rodas mais pela dificuldade de locomoção relacionada à idade.
Kazumi Ogawa, o tio que viabilizou a vinda do sino ao Brasil, também tinha 16 anos quando a bomba caiu. Ele escapou por um triz: “Ele perdeu a embarcação que o levaria ao centro da cidade. O atraso salvou a vida dele”, relembra Naoki. Kazumi faleceu em 2012, aos 83 anos.
Chiyo Ogawa, mãe de Naoki, também é sobrevivente. Com 14 anos em 1945, ela buscou o irmão após a explosão, temendo o pior, mas o encontrou em casa. Chiyo faleceu em 2015, aos 84 anos. “Eles [os pais] quase não falavam no começo. Era muito sofrimento”, recorda Naoki, mencionando que o pai frequentemente se recorda da fome, dos treinamentos militares severos e das agressões físicas comuns na época.
Da Imigração Japonesa à Integração Cultural em Santa Catarina
A família Ogawa imigrou para o Brasil em 1961, estabelecendo-se inicialmente em Santa Maria (RS). Três anos depois, a convite do governo catarinense, que buscava desenvolver a fruticultura de clima temperado em parceria com o Japão, mudaram-se para o que hoje é Frei Rogério.
Em 28 de janeiro de 1963, foi criada a primeira colônia japonesa de Santa Catarina. Em 9 de abril de 1964, chegaram as primeiras oito famílias, incluindo os Ogawa e outros pioneiros. Eles introduziram culturas como nectarina, maçã, caqui e pera japonesa, atividade que a família Ogawa mantém há mais de 40 anos.
O Sino da Paz chegou a Frei Rogério em 1998, com a intenção inicial de ser instalado junto a um monumento em forma de tsuru, ave símbolo da paz no Japão. Por questões de segurança, permaneceu na residência da família até 2010, quando foi integrado ao acervo do Museu da Paz. Após um incêndio em 2016, o sino retornou aos cuidados da família, aguardando a conclusão de um novo museu.
Um Símbolo Vivo de Paz e Memória
Anualmente, em 6 e 9 de agosto, datas dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o sino é levado ao monumento. Ele também é apresentado a grupos de estudantes e turistas, e a cada badalada, a comunidade se une em um momento de silêncio e reflexão. Em agosto, Frei Rogério também promove caminhadas, concursos, palestras e exposições em celebração à paz e à cultura nipo-brasileira.
A memória da imigração japonesa na região se estende a outros espaços, como o Parque Sakura e a Casa Octogonal, conhecida como “Casa dos Sonhos”. Idealizada em 2005 e concluída em 2007 com recursos do governo japonês, este espaço promove eventos culturais, culinária típica e oficinas, além de turismo rural e artesanato local.
A Casa Octogonal é coordenada por Izumi Honda, que lidera uma associação com mais de 100 famílias. “Ele foi um dos facilitadores da vinda das primeiras famílias, em 1964. A nossa história começa ali”, afirma Izumi, referindo-se ao seu pai, Fumio Honda, um dos pioneiros da colonização japonesa na região.
Desde sua reabertura em outubro passado, a Casa Octogonal tem recebido diversos grupos, incluindo idosos, turistas e estudantes. A visitação ocorre mediante agendamento ou durante eventos, mantendo viva a cultura e a história que unem o Brasil e o Japão, perpetuadas pelo Sino da Paz.





















