Santa Catarina na Mira do El Niño: Preparativos Intensos, Mas Execução de Obras Preocupa
Santa Catarina, estado que mais emitiu decretos de calamidade na última década, segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), se prepara para um El Niño de intensidade forte a muito forte. O estado aposta em um satélite próprio, decreto de alerta climático e um programa de gestão de riscos que, segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC), cresceu mais de 300% em 2025.
No entanto, às vésperas da chegada do fenômeno, dados orçamentários revelam que barragens estratégicas do Alto Vale do Itajaí e ações de mitigação estão com execução abaixo do previsto. Essa dualidade entre o avanço tecnológico e a lentidão em obras físicas cruciais levanta questionamentos sobre a real capacidade de resposta do estado.
O TCE-SC destaca o reforço nos investimentos em prevenção na Defesa Civil como ponto favorável. Contudo, demonstrativos do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC) indicam que a ação orçamentária para construção, ampliação e reforma de barragens executou apenas 0,66% do valor originalmente previsto em 2025. Conforme informação divulgada pelo TCE-SC, o programa “Gestão de Riscos” recebeu R$ 230,34 milhões, um aumento superior a 300% em relação a 2024.
Avanços Tecnológicos e Alerta Climático
Em meio à expectativa de um El Niño forte, Santa Catarina tem investido em tecnologia de ponta para monitoramento. O estado opera um sistema inédito no país, com antena própria para recepção direta de imagens de satélite, integrada a uma rede de radares meteorológicos e 172 estações hidrológicas e meteorológicas. Essa infraestrutura permite o acompanhamento em tempo quase real das condições climáticas.
O governo estadual também instituiu um estado de alerta climático por 180 dias, visando mobilizar órgãos, reforçar o monitoramento e pré-posicionar equipes e equipamentos em áreas vulneráveis. O secretário de Proteção e Defesa Civil, coronel Fabiano de Souza, atribui o crescimento dos investimentos a um processo de amadurecimento institucional e fortalecimento da capacidade de investimento da pasta.
“O ano de 2024 foi fundamental para o planejamento das ações que começaram a se materializar em 2025”, afirma Souza, destacando a revisão de projetos, estruturação de processos licitatórios e organização de fontes de financiamento. Ele ressalta que o aumento dos investimentos, somado à capacidade construída para transformar planejamento em execução, explica o salto observado pelo Tribunal de Contas.
Obras de Infraestrutura: Gargalo na Prevenção de Desastres
Apesar dos avanços tecnológicos e do aumento expressivo nos investimentos em prevenção, a execução orçamentária para obras de infraestrutura, especialmente as barragens do Alto Vale do Itajaí, apresenta um cenário preocupante. Em 2025, a ação orçamentária para “construção, ampliação e reforma de barragens” previa R$ 23 milhões, mas foi reduzida para R$ 913 mil, com apenas R$ 153 mil efetivamente executados, o que representa 0,66% do orçamento inicial.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC) apontou em relatório que, em 2024, a Secretaria de Proteção e Defesa Civil utilizou apenas 32,06% dos recursos reservados, enquanto o Fundo Estadual aplicou 49,13%. Rubricas ligadas diretamente à prevenção, como “mitigação, prevenção e resiliência para redução de riscos de desastres” e “ampliação, modernização e melhoria da rede de monitoramento e alerta”, tiveram execução de 0% em 2024.
O conselheiro-relator do TCE-SC, José Nei Ascari, destacou que “o problema não estava na falta de recursos, mas na baixa execução do que está orçado”. A situação se agrava com a queda nos recursos para operação, manutenção e conservação das barragens, que caíram de R$ 9 milhões para R$ 2,5 milhões, com apenas R$ 1,8 milhão gastos.
El Niño: Um Desafio Iminente para Santa Catarina
Meteorologistas e órgãos públicos tratam o El Niño projetado para 2026 como um evento de alta preocupação. A possibilidade de aquecimento de até 3,2°C na faixa equatorial do Oceano Pacífico, segundo a NOAA (agência norte-americana), enquadra o fenômeno na categoria de “super”. Essa condição, combinada ao aumento da temperatura média global, tende a intensificar chuvas e enchentes na Região Sul do Brasil.
A Defesa Civil catarinense estima em 90% a probabilidade de o El Niño se formar ainda no inverno, com tendência de forte a muito forte intensidade entre a primavera e o verão. O risco de alagamentos, inundações e deslizamentos aumenta a partir de julho e agosto, com pico entre setembro e março, período em que o estado concentra a maior parte dos seus desastres climáticos.
Diante desse cenário, o governo catarinense busca acelerar a execução de obras e garantir a efetividade das medidas preventivas. O senador Esperidião Amin (PP-SC) resumiu a crítica geral: “o problema não é a falta de previsão, o problema é a falta de prevenção”. A capacidade de transformar o planejamento em obras concretas e a efetiva aplicação dos recursos serão cruciais para mitigar os impactos do El Niño em Santa Catarina.





















