Casarão Histórico em Florianópolis: Um Tesouro Abandonado de R$ 107 Milhões
Um casarão com mais de 100 anos, que testemunhou a história de três governadores de Santa Catarina, permanece em estado de abandono no coração de Florianópolis. Apesar de decisões judiciais determinarem sua preservação e um projeto de restauro já protocolado, o imóvel histórico, avaliado em R$ 107,5 milhões, segue se deteriorando.
O imponente casarão, tombado como patrimônio histórico, artístico e cultural do município em 2015, foi residência de figuras políticas proeminentes como Vidal Ramos, seu filho Nereu Ramos (único catarinense a presidir o Brasil interinamente) e Celso Ramos. A situação atual, de degradação avançada, motivou uma ação civil pública do Ministério Público de Santa Catarina para evitar a perda completa deste valioso patrimônio.
A demora na resolução do impasse levanta questões sobre especulação imobiliária e a eficácia das políticas de preservação do patrimônio em Santa Catarina. O caso expõe a complexa relação entre o valor histórico, o potencial de mercado e a responsabilidade de conservação. Conforme informações divulgadas, a Justiça tem intervindo desde 2018, com liminares exigindo medidas urgentes de proteção e cobertura provisória, sob pena de multas milionárias.
Um Legado Político e Arquitetônico em Declínio
Construído entre 1910 e 1920, o casarão na Rua Frei Caneca não é apenas um imóvel antigo, mas um símbolo da formação das elites políticas catarinenses. Sua arquitetura eclética, assinada por Augusto Huebel, reflete os princípios higienistas da época, com soluções construtivas voltadas para ventilação e salubridade. A relevância do local se estende ao seu entorno, pois o terreno abriga um dos últimos remanescentes da Mata Atlântica na área central de Florianópolis.
O valor histórico e arquitetônico, somado à importância ambiental, justificou o tombamento municipal. Este ato impede a demolição e exige aprovação prévia do Serviço de Patrimônio Histórico, Artístico e Natural (Sephan) para qualquer intervenção. No entanto, um projeto de restauro, protocolado em junho deste ano, ainda aguarda análise técnica, evidenciando a lentidão dos processos.
Especulação Imobiliária e o Futuro Incerto do Casarão
O terreno onde o casarão está localizado foi a leilão no ano passado, avaliado em R$ 107,5 milhões, com lance mínimo de R$ 53,75 milhões. Apesar de não haver registro de venda nos autos após o encerramento do certame, a possibilidade de um grande empreendimento imobiliário no local é discutida. Segundo o Instituto de Arquitetos do Brasil de Santa Catarina (IAB-SC), um projeto para o terreno inclui o restauro do casarão como contrapartida para benefícios construtivos previstos no Plano Diretor de Florianópolis.
A falta de transparência nas políticas de preservação e desenvolvimento urbano é apontada como um problema estrutural, permitindo que imóveis históricos sejam vistos como ativos de mercado. Um Relatório de Impacto de Vizinhança (RIV) protocolado na prefeitura aponta a San Carlos Incorporadora e Construtora como responsável por um empreendimento que prevê duas torres, uma com até 39 pavimentos, totalizando mais de 192 mil m² de área construída.
O Tempo Como Principal Inimigo
O arquiteto Bernardo Brasil, vice-presidente do IAB-SC, alerta que o tempo é o adversário mais perigoso neste caso. A continuidade do processo de degradação pode tornar o casarão uma ruína irrecuperável em poucos anos, comprometendo a viabilidade de qualquer restauro. A perda do material original pode inviabilizar a própria preservação do patrimônio histórico-arquitetônico.
Passados mais de sete anos da primeira recomendação do Ministério Público e três meses do protocolo do projeto de restauro, o casarão da Rua Frei Caneca permanece fechado e cercado por tapumes. A situação atual reflete a dificuldade em conciliar a vontade política, o interesse do mercado imobiliário e a urgência técnica apontada por especialistas. O futuro deste imóvel histórico, que carrega um legado tão significativo, ainda é incerto.
Um Apelo pela Preservação do Patrimônio
O caso do casarão histórico em Florianópolis reforça a necessidade de reinserir o patrimônio histórico no centro do planejamento urbano. O exemplo de dez conjuntos urbanos tombados em 1986 demonstra a importância dessa abordagem, que parece ter perdido força nas últimas décadas. A preservação deste imóvel, que já foi lar de três governadores de Santa Catarina e representa um importante marco arquitetônico e ambiental, é um desafio que exige atenção e ação imediata.
A reportagem buscou contato com o Sephan-Iuf e a San Carlos Incorporadora e Construtora para obter esclarecimentos sobre o status da análise do projeto de restauro e a situação legal do tombamento, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.





















