O “vinho de açaí” é uma bebida fermentada que vem ganhando destaque no mercado nacional, com potencial para exportação.
Uma bebida de cor arroxeada intensa, que lembra um vinho tinto, mas feita a partir de uma fruta genuinamente brasileira: o açaí. Assim é o fermentado de açaí, uma novidade que tem despertado curiosidade e conquistado paladares, mesmo sendo ainda desconhecida por grande parte dos brasileiros. O produto, ainda informalmente chamado de “vinho de açaí”, é resultado de um processo de fermentação da fruta amazônica, que a transforma em uma bebida única, envasada e servida em garrafas como as de vinho.
A produção de açaí no Brasil é expressiva, com o Pará liderando o ranking nacional, atingindo 1,74 milhão de toneladas cultivadas em 2024, segundo o IBGE. No entanto, os experimentos com a fermentação da fruta para a criação dessa bebida são recentes e, em sua maioria, de pequena escala. A iniciativa de transformar a polpa de açaí em um fermentado com características que remetem ao vinho tem ganhado força, impulsionada por empreendedores visionários.
A jornada do fermentado de açaí começou a se consolidar em 2020, no Acre, com Marcos Vieira, fundador da Florisa Vinhos da Amazônia. Sua experiência com cervejas artesanais o levou a testar outras fermentações, e o açaí se mostrou promissor. O que era um teste durante a produção de hidromel revelou o potencial da fruta para gerar uma bebida própria. Essa inovação, que se expande pelo país, está abrindo novos caminhos para o consumo de produtos amazônicos, conforme divulgado pelas fontes.
Da Amazônia para o Brasil, o “vinho de açaí” ganha adeptos
Os primeiros microlotes do fermentado de açaí, provados por amigos, logo chamaram a atenção pela qualidade e originalidade. A bebida, segundo Marcos Vieira, começou a se “autodivulgar” pela sua própria qualidade. Atualmente, a Florisa Vinhos da Amazônia tem capacidade para produzir cerca de 4 mil garrafas por ano, um volume ainda artesanal, mas que atende a pedidos de todos os estados brasileiros, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro e Belém.
A participação da Florisa na Naturebas, feira de vinhos artesanais em São Paulo em 2024, foi um marco na divulgação do produto para além da Região Norte. Foi através dessa feira que João Capiberibe, no Amapá, conheceu a bebida. Impressionado, ele e sua companheira, Janete Capiberibe, iniciaram seus próprios testes em 2022, fundando a Vinícola Flor da Samaúma. O trabalho deles resultou em dezenas de experiências, com diferentes teores alcoólicos e níveis de doçura.
A Embrapa Amapá, por meio de um comunicado técnico, colaborou no aprimoramento do método de fermentação, que leva entre 21 e 25 dias e pode ser realizado com estrutura simples, ideal para comunidades que já trabalham com açaí. Essa metodologia também tem sido compartilhada em capacitações para comunidades ribeirinhas do Amapá e Pará, fortalecendo a produção local.
O que faz o fermentado de açaí parecer vinho
Apesar de ser popularmente chamado de “vinho de açaí”, a bebida não pode ostentar oficialmente esse nome. A legislação brasileira reserva a denominação “vinho” para produtos derivados da uva. Portanto, a classificação correta é de fermentado de fruta. A semelhança com o vinho não é por acaso, e reside em sua composição.
O açaí é rico em antocianinas, os mesmos pigmentos que conferem a cor intensa às uvas tintas. Após a fermentação, características como acidez e adstringência se desenvolvem, aproximando a bebida do perfil sensorial do vinho. Gustavo Saavedra, chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical, explica que o processo de fermentação altera a composição da fruta, transformando açúcares em álcool e desenvolvendo novas características, assim como ocorre com a uva na produção de vinho.
Uma avaliação da Embrapa Agroindústria Tropical com consumidores habituais de vinho mostrou que 74% concentraram suas avaliações nas faixas mais altas de aceitação para o Curiaú, fermentado de açaí da Flor da Samaúma. Apenas 12% identificaram o aroma característico do açaí, indicando que a fermentação proporciona uma experiência sensorial distinta da polpa. Essa diversidade de percepções é comparável à encontrada nos vinhos, que variam significativamente dependendo da uva, região e método de produção.
Mercado em expansão e a busca por identidade
A produção do fermentado de açaí está se estruturando, mas a comercialização ainda ocorre em pequena escala. Empresas como Florisa, Flor da Samaúma e Família Avelar vendem seus produtos pela internet e participam de feiras, redes sociais e indicações boca a boca para alcançar novos consumidores. A Família Avelar, por exemplo, expandiu suas atividades para incluir experiências de degustação e harmonização para visitantes, impulsionada pelo interesse em seus produtos.
Ainda não existem dados consolidados sobre o tamanho do mercado brasileiro de fermentado de açaí. Renata Batista, gerente do Sebrae no Pará, aponta que as iniciativas no estado estão em estágios variados de desenvolvimento, desde pesquisa até validação comercial. Para que a comercialização ganhe escala, os produtores precisam superar desafios como a regularização da produção, a padronização das bebidas e a ampliação dos canais de venda.
O “vinho de açaí” enfrenta o desafio de se apresentar a um consumidor sem referências claras sobre a bebida. Embora a comparação com o vinho ajude a explicar algumas de suas características, a experiência sensorial única do fermentado de açaí só pode ser verdadeiramente compreendida ao ser degustada. A bebida, com sua identidade amazônica e potencial de mercado, promete se consolidar como um novo ícone da gastronomia brasileira.





















