Estratégia da esquerda em SC mira eleitor moderado com pré-candidato que apoiou Bolsonaro
A esquerda em Santa Catarina aposta em uma movimentação política surpreendente para as eleições ao governo do estado. O nome escolhido para liderar a frente democrática é Gelson Merísio, ex-deputado estadual com trajetória política na centro-direita e que, em 2018, declarou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão visa conquistar o eleitorado catarinense, conhecido por ser conservador, e fortalecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.
Merísio, que trocou o Solidariedade pelo PSB, agora encabeça um palanque que reúne PSB, PT, PDT e PSOL. A chapa majoritária conta com a ex-deputada estadual Ângela Albino (PDT) como vice e Dácio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) como pré-candidatos ao Senado. Essa aliança busca reforçar a presença da esquerda em um estado onde a direita tem forte penetração.
Segundo análise do cientista político Daniel Pinheiro, da Udesc, a escolha de Merísio é uma estratégia calculada. “Santa Catarina demonstrou, nos últimos anos, forte adesão à direita. Nesse contexto, lançar um nome com perfil mais ao centro ajuda a equilibrar a disputa”, afirma Pinheiro. Ele acrescenta que essa tática de buscar alianças e candidaturas mais ao centro não é inédita e já foi utilizada em outros estados para ampliar o alcance eleitoral da esquerda.
Histórico de Gelson Merísio e a guinada política
Natural do oeste catarinense, Gelson Merísio construiu sua carreira política em partidos de centro-direita. Foi vereador em Xanxerê, deputado estadual e presidiu a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) por duas vezes. Em 2018, chegou ao segundo turno da disputa pelo governo, mas foi derrotado por Carlos Moisés. A mudança de orientação política se acentuou a partir de 2022, quando Merísio coordenou a campanha de Dácio Lima ao governo.
Em entrevista à Rádio Princesa, Merísio reconheceu o apoio a Bolsonaro em 2018, classificando-o como um voto de “rompimento do tecido político”. No entanto, ele expressou decepção com a gestão do ex-presidente, citando a falta de agenda com Santa Catarina e a condução da pandemia de Covid-19 como motivos para sua mudança de posição. “Quem mudou fui eu. Acho que existe um espaço para diálogo, para conversa e para que haja respeito”, declarou.
Estratégia para atrair o eleitorado moderado
A pré-candidatura de Merísio busca dissociar a imagem de Santa Catarina de episódios de intolerância e radicalização, buscando resgatar a percepção de um estado acolhedor. “É essa imagem que nós queremos recuperar, de um estado acolhedor, de um estado amigo”, disse durante o lançamento de sua pré-candidatura. A estratégia visa atrair eleitores que se sentem distantes dos extremos políticos.
Daniel Pinheiro pondera que, embora seja cedo para prever o resultado eleitoral, a entrada de Merísio pode fragmentar o voto entre eleitores de centro e direita, abrindo caminho para um possível segundo turno. “O eleitorado não está totalmente posicionado, mas é possível que Merísio dispute espaço, o que pode tornar o cenário mais fragmentado e abrir caminho para um possível segundo turno”, ressaltou o analista.
Pesquisas e o cenário eleitoral em Santa Catarina
Uma pesquisa recente da Atlas/Intel, com 1.280 entrevistados, indica que Merísio aparece com 13,8% das intenções de voto, atrás de Jorginho Mello (PL), com 49,4%, e João Rodrigues (PSD), com 21,4%. Em cenários simulados de segundo turno, a pesquisa aponta que Merísio perderia para ambos os pré-candidatos da direita.
No Senado, a disputa também se mostra acirrada. A mesma pesquisa da AtlasIntel mostra Carol de Toni (PL) na liderança com 30,7%. A segunda vaga está indefinida, com Esperidião Amin (PP) (20,1%), Carlos Bolsonaro (PL) (18,3%) e Dácio Lima (PT) (13,4%) em empate técnico. A montagem da chapa majoritária de esquerda, com a participação de Lula para impulsionar Dácio Lima ao Senado, visa criar uma frente competitiva em um estado tradicionalmente conservador.
A entrada de novos nomes pela direita, como Carol de Toni, Carlos Bolsonaro e Esperidião Amin, pode criar uma “janela de oportunidade” para Dácio Lima avançar, o que seria um resultado expressivo para a centro-esquerda em Santa Catarina, segundo Pinheiro. O cenário eleitoral em 2024 promete ser dinâmico, com a polarização presidencial podendo influenciar as disputas estaduais.





















