Itajaí lidera exportações de barcos e testa os limites da economia do mar
Itajaí, em Santa Catarina, alcançou um marco histórico ao assumir a liderança nacional na exportação de embarcações de lazer e esporte entre janeiro e abril de 2026. A cidade registrou um faturamento de US$ 4,3 milhões no período, superando seu desempenho de 2025, quando ficou em segundo lugar com US$ 18,4 milhões exportados ao longo do ano. Essa ascensão coincide com a realização do Marina Itajaí Boat Show 2026, o maior evento náutico do Sul do país, e sinaliza um rápido crescimento na cadeia industrial, que, no entanto, já começa a esbarrar em seus próprios limites.
A proeminência de Itajaí no setor náutico não é casual. Segundo o Comex Stat, sistema vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a cidade se consolidou como um polo de produção de embarcações de alto padrão. Esse crescimento é impulsionado significativamente pela Azimut Yachts, a única unidade do grupo italiano fora da Europa, que tem sua fábrica instalada em Itajaí.
A Azimut Yachts responde por uma parcela considerável da produção global, entre 10% e 15% do volume mundial e cerca de 35% dos iates fabricados pela empresa no planeta, conforme dados do CEO da operação brasileira, Carlo Alberto Sisto. A fábrica catarinense é fundamental para a estratégia da companhia, que anunciou um investimento de R$ 120 milhões na ampliação da unidade até 2028. O objetivo é expandir o parque fabril para 65 mil metros quadrados e habilitar a produção de megaiates, como o Grande 30 Metri, com previsão de faturamento de R$ 1 bilhão.
O Ecossistema Náutico de Itajaí
A escolha de Itajaí pela Azimut se deve a um conjunto de fatores que formam um ecossistema náutico robusto. O CEO da operação brasileira, Carlo Alberto Sisto, destaca a existência de um setor náutico desenvolvido, uma cultura náutica consolidada e uma cadeia de fornecedores que facilita a produção de embarcações de alto padrão. Atualmente, cerca de 60% da produção do grupo Azimut no Brasil se concentra em Santa Catarina, com Itajaí liderando esse desempenho.
O sucesso industrial é complementado por um mercado interno aquecido e em transformação. Roy Capasso, diretor comercial da Azimut, observa que o perfil do comprador de embarcações no Brasil mudou. O cliente atual é mais direto, participativo nas decisões e possui expectativas elevadas, assemelhando-se cada vez mais ao consumidor internacional. Essa demanda se concentra em um eixo que liga São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, estados que concentram a maior parte das compras e onde as embarcações são utilizadas, graças à infraestrutura de marinas disponível na região de Itajaí.
Marina Itajaí Boat Show: Vitrine e Gargalo da Indústria
O Marina Itajaí Boat Show, realizado de 2 a 5 de julho, serviu como uma importante vitrine para o mercado náutico. O evento reuniu mais de 60 embarcações e atraiu cerca de 20 mil visitantes, funcionando como uma porta de entrada para novos negócios. Modelos como o Grande 85 pés apresentados no salão tiveram ótima recepção, com unidades já vendidas e em processo de entrega, evidenciando a força do mercado brasileiro para produtos de luxo.
Contudo, o evento também expôs os desafios que limitam o avanço do setor. À medida que os barcos vendidos se tornam maiores, a infraestrutura do país, especialmente as marinas, não acompanha esse crescimento. A falta de marinas preparadas para receber embarcações de 27 ou 30 metros, por exemplo, impede o desenvolvimento de negócios relacionados a turismo e experiências náuticas, travando o ciclo de investimento. Sisto reforça a necessidade de investir em infraestrutura náutica, incluindo marinas com capacidade para embarcações de até 200 toneladas e serviços completos de pós-venda e manutenção.
Sustentabilidade e Emprego: Novos Horizontes na Economia do Mar
Além da infraestrutura física, a sustentabilidade emerge como um pilar fundamental para o futuro da indústria náutica. A Azimut Yachts, desde sua fundação em 1969, prioriza práticas sustentáveis, investindo em soluções híbridas e processos mais limpos. A empresa argumenta que a sustentabilidade abrange todo o ciclo de vida da embarcação, desde a produção no estaleiro até o uso em movimento ou atracado, onde o barco passa cerca de 90% do tempo parado. A adoção de energia fotovoltaica, reaproveitamento de água, materiais reciclados e motores híbridos não só atende à demanda de clientes conscientes, mas também gera economia de custos.
O impacto socioeconômico da indústria náutica também é um ponto forte. As atividades ligadas ao uso produtivo do mar empregam cerca de 250 mil pessoas em Santa Catarina, representando 8,5% da força de trabalho formal do estado. Itajaí concentra uma parcela significativa desses postos de trabalho, com um crescimento expressivo na abertura de empresas náuticas. A formação de mão de obra qualificada é vista como essencial, comparando a construção de um iate à de uma casa flutuante, que exige habilidades em marcenaria, elétrica, hidráulica e acabamentos, com o desafio adicional da flutuação e exigências técnicas.
Para consolidar seu protagonismo, Itajaí precisa manter essa engrenagem de exportação, investimento, emprego qualificado e serviços de alto padrão em movimento. O desafio reside em transformar o crescimento em infraestrutura, com marinas capazes de receber megaiates, mão de obra formada em ritmo com a demanda e uma discussão ambiental que vá além do argumento de venda. Conforme informações divulgadas pela Secretaria de Planejamento do estado, o setor na cidade tem visto um crescimento superior a 100% na abertura de empresas náuticas em pouco mais de uma década.





















