G7 Enfrenta Crise Interna e Perda de Relevância em Meio a Disputas e Ascensão de Potências Médias
A cúpula do G7 em Évian-les-Bains, França, inicia sob um clima de incerteza. O grupo das sete economias mais ricas do mundo, composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, vê sua influência ameaçada por conflitos internos e pelo crescente protagonismo de nações emergentes.
As divergências entre os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, e os demais membros do bloco, têm se intensificado. Disputas tarifárias e a ambição de anexar a Groenlândia, território dinamarquês, geram atritos significativos com países europeus.
Essa tensão se estende a temas geopolíticos, como as críticas de Trump à Otan e ao Japão por seu apoio na guerra contra o Irã. A situação atual ecoa a cúpula de 2018, quando Trump retirou o apoio dos EUA à declaração final, evidenciando uma ruptura que, segundo analistas, se aprofundou e abrange quase todas as pautas que deveriam unir o grupo.
Divergências Ampliadas e a Perda de Peso Econômico do G7
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, as disputas tarifárias com a Europa se acentuaram. Essas tensões são agravadas por sanções da União Europeia contra gigantes tecnológicas americanas e pelo desejo de Trump de anexar a Groenlândia, território da Dinamarca. O presidente americano chegou a ameaçar sobretaxar países europeus que se opõem a essa ideia, incluindo membros do próprio G7 como França, Alemanha e Reino Unido.
As divergências, originalmente focadas na economia, agora se espalham para o campo geopolítico. Trump tem criticado outros membros da Otan e o Japão por não apoiarem os EUA na guerra contra o Irã. Gilles Paris, colunista do Le Monde, comparou o momento atual à cúpula de 2018 no Canadá, destacando que a ruptura se aprofundou, afetando o comércio internacional e a política energética, com Trump priorizando combustíveis fósseis em detrimento de energias renováveis.
O professor de relações internacionais Ricardo Caichiolo, do Ibmec Brasília, descreve a situação como uma “paralisia funcional crônica” do G7. Ele aponta para a perda histórica de representatividade econômica global e uma severa fragmentação interna. “As novas tarifas protecionistas dos EUA atingem diretamente os próprios aliados”, afirma Caichiolo, “e as regulações europeias contra as big techs americanas abrem uma guerra comercial e tecnológica dentro do bloco”.
Potências Médias: Complemento ou Contraponto ao G7?
A presença de potências médias como Brasil e Índia na cúpula do G7 levanta questionamentos sobre seu papel. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, alertou que países nesse patamar econômico precisam se unir para não acabarem “no cardápio” em vez de “sentados à mesa”.
Robert Muggah, fundador do Instituto Igarapé, argumenta que essas nações “têm o peso necessário para exigir um papel maior na definição do que virá a seguir”. Por outro lado, Swaran Singh, da Universidade Jawaharlal Nehru, vê o convite como uma estratégia de adaptação do G7 à sua diminuição de peso econômico. Singh ressalta que, enquanto em 1975 o G7 detinha 70% do PIB global, hoje representa cerca de 43% (em dólares correntes) e menos de 28% em paridade do poder de compra.
A participação do G7 na população mundial também diminuiu, caindo de 15% em 1975 para menos de 10%. Mesmo com o desejo da China e da Rússia de fortalecer os Brics como antagonistas do G7, esse bloco emergente enfrenta suas próprias divergências internas, como ficou evidente na recente cúpula de ministros das Relações Exteriores na Índia.
O Futuro do G7 e o Papel Estratégico do Brasil e da Índia
Apesar da sua “obsolescência manifesta”, o desaparecimento do G7 é considerado improvável, dada a ausência de um substituto capaz. A impotência dos Brics, formado como resposta do Sul Global, corrobora essa tese, segundo Gilles Paris. Caichiolo vê Brasil e Índia atuando como “complemento prático” nas pautas globais, mas também como “contraponto estratégico” na governança geopolítica.
O convite a essas potências reflete a necessidade do G7 de buscar legitimidade em temas como transição energética e cadeias de suprimentos, áreas onde o Ocidente já não decide sozinho. Ao liderarem o Sul Global e defenderem a reforma das instituições financeiras internacionais, Brasil e Índia atuam como contrapeso, buscando despolarizar o cenário internacional em benefício próprio, sem aderir automaticamente aos alinhamentos de Washington ou Bruxelas.





















