Ponte Anita Garibaldi, em Laguna (SC), está fechada desde 9 de julho após falha em cabo de sustentação. Entenda a causa técnica, os impactos na BR-101 e a previsão de liberação.
Laguna (SC) — Desde a noite de quinta-feira, 9 de julho, o principal corredor rodoviário do Sul catarinense está com um único ponto de estrangulamento: a Ponte Anita Garibaldi, sobre a BR-101, entre os quilômetros 312 e 315. A estrutura, por onde passam em média 40 mil veículos por dia, foi interditada de forma preventiva pela concessionária CCR ViaCosteira depois que uma inspeção especial encontrou fios rompidos dentro de um dos 90 cabos que sustentam a ponte estaiada. Mais de cem horas depois, o trânsito segue represado, a economia da região sente o impacto e a data de 20 de julho se tornou o horizonte que todo o Sul do estado observa.
Esta reportagem reúne informações da concessionária, da Prefeitura de Laguna, da Polícia Rodoviária Federal e de relatos de motoristas para reconstruir o que motivou o fechamento, como a rotina de quem depende da rodovia mudou da noite para o dia e o que ainda está em aberto sobre o futuro da estrutura.
O que provocou a interdição
Segundo o diretor da CCR ViaCosteira, Fernando de Marchi, a concessionária realiza inspeções visuais rotineiras e, duas vezes por ano, uma avaliação técnica mais aprofundada da ponte. A primeira vistoria especial de 2026, feita em abril, não havia identificado nenhuma irregularidade. Já a segunda, concluída na própria quinta-feira (9), apontou uma anomalia em uma das 90 cordoalhas do sistema de sustentação, cada cordoalha é formada por múltiplos fios de aço de alta resistência, e o problema está restrito a alguns desses fios, não ao cabo inteiro.
De Marchi afirmou que a decisão de bloquear a rodovia foi tomada assim que o laudo técnico ficou pronto, sem que houvesse tempo de antecipar o aviso às autoridades locais. O prefeito de Laguna, Peterson Crippa da Silva (Republicanos), relatou publicamente ter sido informado pela concessionária por volta das 18h10 de quinta-feira de que a interdição total ocorreria já às 19h. Uma janela de menos de uma hora para a cidade se preparar.
Tanto a ViaCosteira quanto a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) sustentam que não há risco de colapso e que o fechamento total é uma medida preventiva, necessária para que as equipes possam trabalhar com segurança no interior da estrutura e inspecionar os 89 cabos restantes. Para apoiar a análise, a concessionária contratou um consultor italiano especializado em pontes estaiadas. Segundo De Marchi, só depois da conclusão dos estudos será possível dizer se a falha é um problema de construção, de fadiga do material ao longo do tempo ou de outra origem. A ND Mais registrou que problemas semelhantes na estrutura já haviam motivado reparos em 2022, o que levanta a questão de fadiga acumulada nos cabos, um ponto que a concessionária ainda não respondeu publicamente.
Uma obra de R$ 777 milhões sob os holofotes
Inaugurada em julho de 2015, a Ponte Anita Garibaldi foi concebida para eliminar um dos maiores gargalos da BR-101 no Sul do Brasil e custou cerca de R$ 777 milhões. Em uma década, se tornou não só uma ligação logística essencial entre o Norte e o Sul de Santa Catarina, mas também um símbolo turístico de Laguna. A interdição de 2026 é, até agora, a mais longa já registrada na estrutura e reacende o debate sobre a dependência de uma única travessia de grande porte para escoar todo o tráfego pesado do Estado.
O trânsito no limite: filas de até 15 km
Com os 40 mil veículos diários que normalmente cruzam a ponte redirecionados para a antiga Ponte de Cabeçudas, uma estrutura de pista simples, sem capacidade para o mesmo volume, a BR-101 registrou congestionamentos de até 15 quilômetros nos dois sentidos já nos primeiros dias de bloqueio. Caminhoneiros relataram ter ficado até oito horas parados sobre a própria ponte interditada antes da liberação de meia pista, e moradores das comunidades ao longo do desvio passaram a enfrentar dificuldades até para chegar às próprias casas.
Um episódio registrado pelo portal Ligado no Sul ilustra o desgaste acumulado pelos motoristas: na madrugada de segunda para terça-feira (13 para 14), um morador de Laguna, José Antônio Martins Silva, precisou descer do carro e bater na porta da cabine de um caminhão parado havia horas na fila o motorista havia adormecido ao volante, mesmo com a pista livre à frente. Pouco depois, outro caminhoneiro na mesma situação só foi despertado depois que Silva pediu que os carros atrás buzinassem em conjunto. O relato expõe, de forma concreta, o cansaço acumulado por quem enfrenta horas de espera na rodovia desde o início da interdição.
O que mudou no trânsito a partir desta semana
Na segunda-feira (13), a Prefeitura de Laguna reuniu representantes da Polícia Rodoviária Federal, da Guarda Municipal e da própria CCR ViaCosteira para tentar reduzir o caos. Do encontro saíram medidas imediatas: mudança no ponto de descida para a pista marginal no sentido Norte, retirada de quatro lombadas no sentido Sul e a criação de uma passagem exclusiva para veículos leves na região Norte, com a proibição progressiva de caminhões nesse trecho como forma de proteger as comunidades locais. A Guarda Municipal e a PRF reforçaram a fiscalização ao longo do dia e da noite para coibir motoristas que tentam usar o acostamento ou trafegar pelas marginais em sentido contrário.
A Prefeitura não tem jurisdição sobre a BR-101, rodovia federal sob concessão da Via Costeira, mas assumiu o papel de articuladora entre os órgãos e canal de escuta para as demandas da população afetada pelo desvio.
Como alternativa ao trecho mais congestionado, a travessia de balsa entre Laguna e Ponta da Barra passou a operar 24 horas por dia, com duas embarcações simultâneas durante o período diurno para reduzir o tempo de espera de veículos leves e moradores. Para deslocamentos mais longos entre regiões do Estado, a rota alternativa é a BR-282, com aumento significativo de percurso, enquanto viagens regionais podem optar pela SC-100, via Farol de Santa Marta.
Saúde, educação e turismo: o custo que não aparece nas filas
Os impactos vão muito além do trânsito parado. Em entrevistas concedidas nos primeiros dias após a interdição, o prefeito Peterson Crippa da Silva descreveu o cenário como caótico e afirmou que o sistema de saúde do município já sente o efeito do isolamento parcial. Segundo ele, o serviço de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) responsável por levar pacientes de Laguna a consultas e procedimentos em Tubarão, cidade vizinha a cerca de 30 km colapsou: motoristas que antes faziam de três a quatro viagens por dia ao hospital de referência agora conseguem completar apenas uma.
A educação também foi afetada, já que boa parte dos estudantes de Laguna frequenta escolas em Tubarão e depende do mesmo trecho para o deslocamento diário. E o turismo, segundo o prefeito, é o setor mais sensível ao momento: Laguna se prepara para as comemorações dos 350 anos de fundação do município, previstas para 29 de julho, e a incerteza sobre a liberação da ponte ameaça a logística do evento. Diante do agravamento da situação, a Prefeitura chegou a sinalizar publicamente que o município caminha para tratar o cenário como uma emergência administrativa.
Bastidores da obra: 50 profissionais trabalhando 24 horas
Enquanto os motoristas enfrentam o desvio pela Ponte de Cabeçudas, a recuperação da estrutura avança longe da vista de quem passa pela região. Segundo a Via Costeira, cerca de 50 profissionais entre engenheiros, técnicos, especialistas em pontes estaiadas e equipes operacionais atuam ininterruptamente, 24 horas por dia, na parte interna da ponte. É por isso que praticamente nenhum sinal visível de obra aparece para quem cruza o desvio: os reparos acontecem dentro da estrutura, não na superfície da pista.
Quando a ponte deve reabrir
A previsão oficial da CCR ViaCosteira é concluir a primeira etapa da intervenção até 20 de julho. A partir dessa data, a concessionária avaliará com base na evolução dos reparos e no resultado das novas inspeções nos 89 cabos restantes a possibilidade de liberar novamente o tráfego, ainda que de forma parcial. A empresa reforça que todos os demais cabos, na primeira análise, estão íntegros, mas que a prioridade é ter certeza de que nenhuma outra intervenção emergencial será necessária. Mesmo após uma eventual liberação parcial no dia 20, obras complementares na estrutura devem continuar sendo executadas.
Até lá, a orientação das autoridades para quem depende da BR-101 no Sul de Santa Catarina é a mesma repetida em cada boletim: programar a viagem com antecedência, considerar rotas alternativas e redobrar a atenção ao volante especialmente durante a madrugada, quando o cansaço acumulado nas filas já provou ser um risco tão real quanto o próprio congestionamento.





















