Domo de Vargeão: Fenômeno Raro no Mundo Coloca Cidade Brasileira no Radar do Turismo Científico
Uma pequena cidade de pouco mais de 3,7 mil habitantes no oeste catarinense, Vargeão, guarda um segredo geológico que levou décadas para ser plenamente compreendido e que agora atrai cientistas de renome internacional, incluindo da Nasa.
O Domo de Vargeão, uma impressionante cratera formada pelo impacto de um meteorito há entre 80 e 100 milhões de anos, é um dos fenômenos geológicos mais raros do planeta e se tornou uma joia do turismo científico brasileiro.
Com 12 quilômetros de diâmetro, esta é a única estrutura deste tipo em Santa Catarina, e sua singularidade a torna um laboratório natural para estudos que vão desde a geologia terrestre até a exploração espacial. Conforme informação divulgada pelo geólogo Álvaro Penteado Crosta, professor da Unicamp, a descoberta e o reconhecimento científico da cratera foram um processo gradual.
Desvendando um Impacto Milenar
A história do reconhecimento científico da cratera começa no final da década de 1970, quando o geólogo Álvaro Penteado Crosta iniciou suas pesquisas na região. Na época, a formação era interpretada por outros geólogos como de origem vulcânica, uma hipótese que Crosta logo desconfiou.
“Na nossa primeira visita, tive a convicção de que aquilo de fato não era uma estrutura vulcânica, mas sim uma cratera meteorítica. Isso está impresso nas rochas”, relatou Crosta. Ele explica que o meteorito que atingiu Vargeão tinha entre 550 e 800 metros de diâmetro e liberou uma energia equivalente a cerca de 500 mil bombas nucleares.
A força desse impacto deformou as rochas de maneira permanente, deixando uma assinatura geológica inconfundível. “Mesmo que a cratera seja, com o passar do tempo, desgastada, erodida, as rochas permanecem com essa deformação impressa nelas”, detalhou o geólogo.
Um Laboratório Natural para Estudos Espaciais
O Domo de Vargeão possui características que o tornam excepcionalmente valioso para a ciência. Existem apenas cerca de 200 crateras de impacto catalogadas no mundo, e nove delas no Brasil. Contudo, Vargeão se destaca por ser uma das poucas formadas sobre basalto, a rocha predominante na superfície da Lua e em Marte.
“Uma cratera formada nesse tipo de rocha tem um interesse enorme, porque é semelhante ao que acontece na Lua e em Marte. A gente pode, sem precisar ir à Lua ou a Marte, estudar fenômenos de impacto em basalto usando o Domo de Vargeão”, explicou Crosta. Essa semelhança geológica permite que cientistas estudem processos lunares e marcianos diretamente em solo catarinense.
Outro fator que singulariza o Domo de Vargeão é a intensidade do impacto, que removeu quase um quilômetro de basalto e expôs o arenito do Aquífero Guarani na superfície. Normalmente, esse arenito está a um quilômetro de profundidade na região.
Preservação e Acesso Facilitam a Pesquisa
Além de suas características geológicas únicas, o Domo de Vargeão é notavelmente bem preservado e de fácil acesso, o que aumenta ainda mais seu valor científico. A secretária de Cultura e Turismo de Vargeão, Vanda Gehlen Gregianin, ressalta que “ela não sofreu muita erosão com o tempo. É fácil de se colher materiais, de se conhecer os locais”.
Essa combinação de fatores tem atraído pesquisadores de diversas partes do mundo. Cientistas da Nasa já visitaram a cidade em diferentes ocasiões, e equipes internacionais, como uma italiana em 2026, coletaram amostras do solo para compará-las com o regolito lunar. “A Nasa tem amostras do solo lunar e as comparou com o de Vargeão. O nosso solo ficou similar ao solo lunar”, revelou a secretária.
Vargeão Investe em Turismo Científico e Cultural
Com o objetivo de capitalizar esse potencial científico, Vargeão está promovendo a modernização do museu local, que ganhará tecnologia de visualização 3D e recursos interativos, especialmente voltados para jovens e estudantes. O geólogo Álvaro Penteado Crosta atua como consultor científico do projeto, com inauguração prevista para julho ou agosto deste ano.
Um projeto de lei na Assembleia Legislativa de Santa Catarina propõe o reconhecimento oficial de Vargeão como a capital catarinense do meteorito. Paralelamente, um plano de desenvolvimento turístico está em andamento, com o apoio a 16 empreendedores locais para a criação de novas opções de hospedagem, restaurantes e roteiros turísticos.
“Queremos atender turistas, não apenas pessoas que passam pela região”, afirmou Gregianin. Para Crosta, o maior desafio é cultural, conscientizar sobre o valor inestimável desse “presente da natureza” para a região, um fenômeno tão raro e tão bem preservado.





















