Crise Climática Ameaça Produção de Ostras em Santa Catarina, Principal Polo Nacional
O setor de ostras em Santa Catarina, responsável por 97% da produção nacional de moluscos, está sofrendo um golpe severo devido ao aumento das temperaturas do mar. Estimativas apontam para perdas de cerca de 72 milhões de ostras apenas em 2026, um cenário alarmante para os produtores que já enfrentam prejuízos significativos.
Em resposta à crise, muitos produtores foram forçados a comercializar exemplares menores, conhecidos como “refugo”, que normalmente não atendem aos padrões de mercado. Essa medida emergencial reflete a gravidade da situação, que impacta diretamente a economia do estado e o abastecimento do mercado nacional.
Diante deste cenário desafiador, as autoridades e pesquisadores buscam soluções inovadoras para mitigar os danos e adaptar a maricultura às novas condições climáticas, conforme informações divulgadas pelo governo catarinense.
Impacto do Calor Extremo na Produção de Ostras
A ostra do Pacífico (Crassostrea gigas), espécie predominante no cultivo em Santa Catarina, é particularmente sensível a altas temperaturas. Enquanto a temperatura média do mar na região costuma ser de 28°C, registros recentes indicam picos de até 34°C durante o verão. Essa elevação causa a queda na oxigenação da água, resultando em mortalidade em massa nas fazendas marinhas.
André Novaes, gerente do Centro de Desenvolvimento em Aquicultura e Pesca (Cedap) da Epagri, detalha o impacto: “Todos os anos há registro de mortalidade no verão, geralmente entre 30% e 40%. Neste ano, porém, o impacto foi muito superior, com perdas que chegaram a 90%, o que exige medidas urgentes para evitar novos prejuízos”.
Medidas de Apoio e Busca por Alternativas
O governo de Santa Catarina anunciou uma linha de crédito emergencial de R$ 40 milhões, com limites de até R$ 50 mil por produtor, sem juros e com prazo de cinco anos para pagamento. O objetivo é auxiliar os produtores a superarem este momento de crise e investirem em adaptações.
Paralelamente, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) investiga alternativas para reduzir a vulnerabilidade do setor. Entre as propostas estão o desenvolvimento do mercado de carne de ostra cozida, permitindo a colheita em períodos mais frios, e o investimento em linhagens de ostras mais resistentes ao calor.
O Fenômeno das Ostras Verdes: Uma Nova Oportunidade?
Em meio às dificuldades, um fenômeno inusitado chamou a atenção: ostras cultivadas na baía sul de Florianópolis apresentaram uma coloração esverdeada, gerando estranhamento entre os consumidores. Análises iniciais apontam para a proliferação de microalgas do grupo das diatomáceas, possivelmente a espécie Haslea ostrearia.
Essa mesma microalga é responsável pelas famosas “huîtres vertes” da região francesa de Marennes-Oléron, consideradas uma iguaria sofisticada. A cor verde é atribuída a um pigmento azul chamado marennina. Longe de representar um risco sanitário, a presença dessa microalga pode agregar valor nutricional às ostras.
O professor Rafael Diego da Rosa, da UFSC, destaca o potencial: “Essa microalga tem grande potencial, inclusive para aplicações biotecnológicas, como na produção de alimentos e na área farmacêutica”.
Adaptação e Inovação para o Futuro da Maricultura
Pesquisadores da Epagri e outras instituições como o Ministério da Pesca e Aquicultura e a UFSC estão trabalhando para entender as condições ambientais que favoreceram o reaparecimento dessas microalgas. A ideia é identificar fatores como correntes marítimas, ondas de calor e ventos para, possivelmente, reproduzir essas condições em laboratório e viabilizar o cultivo controlado.
Se o cultivo controlado da microalga for bem-sucedido, a maricultura catarinense poderá transformar a crise climática em uma oportunidade de negócio. A produção e comercialização de ostras verdes, agregando valor ao produto e abrindo portas para as indústrias alimentícia e farmacêutica, pode ser um caminho para a sustentabilidade do setor em Santa Catarina.





















